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Segundo voo este silêncio que atravessa o dia parece uma borboleta muda as dúvidas são delicadas...
Escrito por célia musilli às 15h37
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Sabedoria quase chinesa
se alguém não te alimenta inventa uma manhã de sol fruta fresca chá de hortelã pra despertar a alma com calma porque o dia apenas começa e o amor não combina com pressa
Escrito por célia musilli às 10h43
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Apagando os traumas Desde cedo sofro com o excesso de educação. Sempre fui de pedir desculpas, dizer “com licença” e “muito obrigada”. Minha mãe era firme neste sentido, de modo que cresci sem querer desagradar aos outros e fazendo tudo direitinho. No primeiro dia, no Jardim da Infância, pedi uma borracha emprestada, tinha chegado ali meio sem graça, com cara de cachorro que caiu da mudança, e o mau-humor de uma coleguinha japonesa, que me disse um solene “não”, caiu como uma pedra de gelo no copo do meu peito. Só respirei aliviada quando outra menina me emprestou a borracha e não me contive, comentando de um jeito tímido e meio babaca para a japonesa do gelo: “Tá vendo como ela é mais boazinha que você!” O que valeu outro olhar raivoso e me deu a sensação de que tinha dito a segunda besteira do dia. Na verdade, sempre me achei uma boba com meu excesso de educação e deferência, com minhas atitudes “maduras” quando era ainda uma pirralha que nunca fazia birra, nem bancava a chata ou egoísta, como a maioria das crianças. Acho que o excesso de adequação acabou dando um nó dentro de mim. Na adolescência consegui ser mais rebelde. Comecei a me sentir segura para falar ou escrever sobre o que me desse na telha, principalmente escrever, que era uma forma de me vingar da minha babaquice individual e do grupo. Irreverente, fui reconhecida nesta fase como uma espécie de líder do bando, usando argumentos que me pareciam inteligentes e agindo como quem “sabe o que está fazendo.” Fui a primeira a fumar e a transar, as outras vinham atrás experimentando o que eu já havia feito, mas eu ainda me continha num excesso de educação, preferindo , por exemplo, ser ofendida a ofender, desdobrando-me em gentilezas mesmo quando encontrava tipos nada gentis pela frente. Não entendia nem imitava os adolescentes que tiravam sarro de tudo, zombando de pessoas na rua ou de colegas da escola. Minha ética nunca me permitiu passar por cima de ninguém e acho que nisto existe uma dose necessária de respeito ao próximo Mas, por outro lado, na hora de me safar de problemas também acho que me faltava auto-defesa. Talvez por isso, tenha aprendido a retrucar as coisas por escrito ou ponderar demais nas discussões com argumentos que podem até ser bons, mas aos quais faltam uma dose de agressividade que às vejo nas pessoas que sabem, solenemente, mandar quem lhes desagrada para o inferno, saindo de cena com a sensação de vitória de quem não perde tempo com gente medíocre. Hoje, avançando na maturidade, costumo dizer que ainda acabo como “uma velha louca”. E louca quer dizer, simplesmente, redimensionar as relações entre mim e o mundo, fazendo as coisas sem excesso de zelo, gentileza ou educação. Embora ache, às vezes, que o que falta ao mundo é exatamente Gentileza, como pregava aquele “profeta” de grata lembrança que saia às ruas do Rio distribuindo flores no meio do caos. Ainda hoje, os amigos íntimos brincam comigo imitando minha voz meio infantil, acham-me excessivamente delicada, me dando a impressão de que nunca vou me curar do comedimento e dos meus gestos “educados.” Mas sinto-me feliz quando vejo nascendo em mim a “velha louca”, aquela que não vai estar nem aí para a opinião dos outros, fazendo o que tiver vontade sem passar recibo da fragilidade de quem, ao longo da vida, tentou não magoar ninguém, numa atitude que às vezes me cheira à baixa auto-estima. Alguém aí pode me dizer se baixa auto-estima tem a ver com isso? Com esta quase incapacidade de ser objetiva quando deveria soltar os cachorros em cima de quem merece? Se eu não fosse tão educadinha lá no Jardim da Infância, deveria ter dito pra aquela coleguinha japonesa: “Enfia a borracha no...” Bem, agora vocês sabem onde eu deveria ter “apagado” os traumas...rss.
Escrito por célia musilli às 15h06
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Quase um samba acordei com saudade querendo te ver outra vez querendo o carinho que um dia você me fez antes de ir trabalhar. fico pensando se a gente ainda vai dar no mar que atende pelo nome de Amor cedendo ao desejo de amar
beijos da tua Nega
Escrito por célia musilli às 21h44
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Foto-montagem enviada por Lacques Jacan
Tesão e repressão na Idade Mídia Não vi nada demais no vestidinho da Geisy e acho que o desejo da horda era arrancá-lo Não ia dizer nada sobre a estudante que foi expulsa da Uniban. A Geisy já está muito “falada.” Falam bem e falam mal desde que ela resolveu ir à faculdade com aquele vestidinho rosa-choque e saiu “abraçada” com o pelotão de choque, sob o risco de ser linchada porque mostrou as pernas. Eu não ia dizer nada. Estava me segurando porque não agüento mais estes confrontos que alvoroçam a mídia e depois acabam em pizza, como aquela história do bispo do Recife que excomungou uma garota de 9 anos que abortou depois de ser sido estuprada. O caso foi parar nos jornais e, depois do alvoroço, todo mundo voltou à rotina, quem sabe à missa, com as velhas cabeças empoeiradas e cheias de sentenças. Mas diante da decisão da Uni(tale) Ban de expulsar a Geisy, não dá pra ficar quietinha. Sinto cócegas na língua e o silêncio pesa. Então vamos lá, sem tentar abordagens sociológicas, quero apenas dizer que o que fizeram com esta moça fere um princípio elementar: o de cada um fazer o que gosta, vestir o que gosta, viver como gosta. Acho que ela jamais imaginou naquele dia, em frente ao espelho, enquanto se vestia para ir à faculdade e depois curtir a balada, o que “causaria” nos invejosos de plantão porque ousou ser livre e usar um vestido do tamanho que considerou apropriado aos seus desejos. Porque as pessoas se vestem para se embelezar, para atrair, para serem desejadas, por que não? Ou para se esconder em dias em que não estamos a fim de exposição. Roupa é também um emblema , um estado de espírito, que a gente veste ou despe para comunicar alguma coisa. Nudez, no país do carnaval, deixou de ser mistério há muito tempo – o que até lamento – mas também não pode ser vista como pecado ou sem-vergonhice, antes como "entretenimento.". Afinal, as crias fogosas do Brasil “liberal” estão todas por aí: a Mulher Samambaia, a Mulher Melancia, a Sabrina Sato que os invejosos de plantão lambem com os olhos. Mas como são mulheres da televisão, mulheres da Marquês de Sapucaí, as celebridades estão fora do alcance, não têm a vulnerabilidade das Geisys que viram saco de pancadas e de insultos porque são anônimas. Assim, mulher comum que se veste de forma “inadequada” , merece ser chamada de puta em coro alto, numa execração coletiva que resume a violência de um apedrejamento verbal. Estavam lá, aqueles rapazes e garotas de classe média, cansados de ver coxas e bundas, unidos para um ato medíocre de desrespeito à individualidade da Geisy. O que me dá náusea é pensar que a horda é universitária, formada por pessoas que tem um mínimo de informação sobre direitos e liberdades. Mas resolvem fazer o papel medíocre de censores e guardiões de bons costumes que eles mesmos burlam na primeira oportunidade de “pegar” uma fêmea para consumo. Ou alguém acredita que aqueles rapazes e moças que ofenderam Geysi jamais encararam uma farra, um ato “ilícito”, um comportamento que não se exibe na sala de TV ao lado de papai e mamãe? O que os atingiu foi a sensualidade da moça sem máscaras sociais, sem inibição de mostrar as pernas como uma bandeira ao prazer. Mas a sexualidade feminina, na cabeça da horda, deve permanecer oculta para que não provoque a sua libido e sua incapacidade de expressão sexual.Trata-se então de uma horda de reprimidos que na primeira oportunidade quer esmagar a libido alheia, porque não assume o próprio tesão. E tesão reprimido ou disfarçado vira uma bomba de energia nefasta e mal distribuída, uma carga explosiva de desejos insatisfeitos que nos mostram a face nauseante da Idade Mídia, em que a moral é um escudo falso de intenções mal resolvidas. O que a horda fez foi uma catarse fortalecida na falsidade dos bons costumes. Na primeira oportunidade, aqueles rapazes e moças vão atrás do trio elétrico esfregar as genitálias ocultas pelos abadás. Porque no carnaval pode, mas na faculdade, pelo menos a olhos vistos, o corpo é tabu e quem rompe a barreira merece ser linchado. Deus nos livre do tesão reprimido desta gentinha. E , se querem saber, não vi nada demais no vestido da Geisy. Sem decote, com mangas largas, era apenas um vestido curto que, afinal, mostrou o quanto é curta a mentalidade da nossa pobre juventude universitária.
Escrito por célia musilli às 11h23
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Tenho sete vidas Ontem caí de uma escada no Museu Histórico. Na saída, depois de ver as belas fotos de George Craig Smith, desci um degrau e faltou o chão.Então descobri que o tornozelo é dobrável e que difícil é desdobrá-lo. Um guarda veio ajudar, eu fiquei ali, sem saber se ria ou chorava. Até que levantei, sacudi a poeira, dei a volta por cima. Voltei para casa dirigindo. Mais tarde percebi que o tornozelo inchava como um balão. Liguei para a Jack, que apareceu como a fada-madrinha, e me levou ao hospital. O médico pediu raio X. Sempre achei curiosos estes aparelhos que mostram o avesso da gente. O avesso do meu pé é um conjunto de ossinhos, no “negativo” parece uma tela abstrata e enquanto eu via aquela obra-de-arte dolorida, lembrei de uma benzedeira da minha infância. Quando alguém se machucava, Dona Irene pegava linha e agulha e num pedaço de pano costurava tudo de novo, colocando as coisas no lugar: osso partido, nervo torto, músculo doído. Lembrei da sua conjuração. Sabe-se lá que santos costuram pele e osso. Meu pé não estava quebrado, mas o médico queria “engessar para imobilizar.” Eu não quis. Não sou mulher de viver engessada, muito menos com uma pedra no pé. Prefiro atirar pedras do que carregá-las, ainda que não seja para machucar ninguém, mas só pra ver os círculos se formando dentro d’água. Prometi ao médico que ficaria quietinha, sem gesso. Sem caminhar, sem dirigir, sem movimentos bruscos. Só faço movimentos bruscos quando me assusto, no mais, prefiro andar como os gatos, deslizando pra passar despercebida. Sobre os machucados dos nervos, acho que doem, mas os do coração doem mais. Ban-daid não adere ao coração, este músculo de aparência forte e sentimentos delicados. Cristal de Flandres que trinco e colo. Nunca fica igual, mas me orgulho das cicatrizes de vidro nos seus espaços líquidos. Quem sente, trinca. Quem vive, se quebra. Hoje não saio de casa. Fico aqui, pé ante pé, até reencontrar o equilíbrio. Osso quebrado, nervo torto, músculo doído é coisa que só entende quem sente. Nos outros não dói. Na semana que vem, volto a subir no telhado sem medo. Tenho sete vidas.
Escrito por célia musilli às 12h07
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Difícil é acertar as contas com o destino. Então, como diz Leminski, " o que vier eu assino."
Escrito por célia musilli às 22h25
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O adeus a Lévi-Strauss Claude Lévi-Strauss completaria 101 anos no próximo dia 28. Mas a notícia de sua morte chegou antes, ele faleceu no último dia 31. Ainda que tenha sido longevo o suficiente para deixar uma obra monumental, ele pertenceu a uma parcela da humanidade que deveria ser eterna. Homens assim sempre fazem falta. Nascido em Bruxelas, Lévi-Strauss foi um dos principais pensadores do século 20, criador da Antropologia Estruturalista que começou investigar o homem sem fazer distinção entre nativos e civilizados. Para ele, todo homem tinha igual valor, integrando qualquer etnia ou sociedade. Refutando o dogma de que a civilização ocidental é privilegiada, ele passou mais da metade da vida estudando os índios americanos. A partir destas pesquisas fundamentou o Estruturalismo, valendo-se das experiências vivenciadas nas viagens ao Brasil-Central, observando a racionalidade e a cultura das tribos para valorizar a “filosofia indígena.” Deste trabalhou nasceu, entre outros livros, “Tristes Trópicos”, uma de suas obras fundamentais. Durante suas andanças pelo Brasil, Lévi-Strauss visitou o Norte do Paraná, em 1935. Na época, Londrina nascia como a cidade de colonização mais rápida do planeta, exuberante como um território coberto por florestas subtropicais que, em pouco tempo, sucumbiram a um projeto de “civilização” implantado pelos ingleses da Companhia de Terras. A visão deste Eldorado e de como os europeus usufruíam de suas riquezas, obedecendo à mentalidade do “progresso” capitalista, chamaram a atenção de Lévi-Strauss que não deixou de registrar aquilo que viu, escrevendo em tom crítico sobre o Norte do Paraná e a colonização de Londrina : (...) no fundo dos vales, as primeiras colheitas, sempre fabulosas nessa ‘ terra roxa ’, violeta e virgem, germinavam entre os troncos das grandes árvores jacentes e as cepas. As chuvas de inverno se encarregariam de decompô-las em húmus fértil, o qual, quase de imediato, seria levado de roldão pelos declives, junto com o outro que alimentava a floresta desaparecida, cujas raízes fariam falta para retê-lo. Quantos anos levaria, dez, vinte, ou trinta, até que essa terra de Canaã adquirisse o aspecto de uma paisagem árida e devastada?” Bastaram pouco mais de quatro décadas para que sua “profecia” se cumprisse. Nos anos 70, a Canaã tomada pelas plantações de soja - depois do ciclo do café - exibia um cansaço na forma de erosão que se mostrava como veias abertas por onde escapou muita vida. Hoje, aqui e ali pequenos trechos de mata testemunham que sobraram no Paraná menos de 5% de florestas. A maior parte foi arrancada pela força bruta de um processo em que a ganância conta mais que o homem. Olhar para a vida, o homem e a terra de modo integral é uma das lições de Lévi-Strauss que deixa uma espécie de conhecimento sensível cada vez mais raro, como se o pensamento fosse pequenas áreas de floresta. "Meu único desejo é um pouco mais de respeito para o mundo, que começou sem o ser humano e vai terminar sem ele". (Claude Lévi-Strauss)
Escrito por célia musilli às 17h59
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Instruções para o arrebatamento: entregar-me ao dia como se fosse o último....
Escrito por célia musilli às 09h26
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