
Quase a infância
na tarde líquida caramujos deixam viscosidade e grude entre as árvores cascas camuflam-se nos troncos até que antenas marrons despontam para lembrar que é tenso e úmido lamber escargots como o primeiro beijo prossigo entre as folhas em rotas de seda tecelã da brisa que acende a memória de um canto breve até a última ciranda perdida nos galhos trincar a fruta entre a língua o gozo e o sumo
Escrito por célia musilli às 12h59
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Música para sonhar...
http://www.youtube.com/watch?v=D5cLdZfx2RA
Escrito por célia musilli às 23h09
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Quase uma oração
Um dia a gente acorda e percebe que mudou, depois de levar muita porrada e ter os ossos moídos junto aos sonhos. Um dia a gente acorda e percebe que nem toda mudança precisa ser amarga, embora o que nos mova quase sempre seja a dor, esta parceira do imprevisto...
Um dia a gente acorda e descobre do lado do avesso um espaço zen, uma espécie de paz interior que nos adula e acaricia, como se a mãe voltasse a nos pegar no colo.
Neste dia, inexplicavelmente, decidimos que o melhor a fazer numa manhã é plantar um girassol só para ver, dali a um tempo, sem angústia, dilema ou rejeição, que a vida dança a dança dos dervixes...e que a nossa entrega à vida é um ritual sem hoje nem amanhã.
A felicidade pode ser o ato de movimentar -se como os girassóis, para lá e para cá, só pra ver onde começa e onde termina o dia...sem pressa. Os acontecimentos não nos pertencem.
Escrito por célia musilli às 10h19
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Fragmento
Às vezes fico pensando o que os "outros" fazem com os instantes vividos. Falo daqueles especiais, quando o tempo pára e a vida suspensa parece um céu estrelado, como a paz de um longo beijo.
Às vezes fico pensando o que os “outros” fazem com as palavras doces, as frases de entrega, a felicidade espontânea, o afeto que ilumina. Eu geralmente os guardo como um tesouro, por tempo indeterminado. Sou meticulosa como quem coleciona borboletas. Então, alguns instantes duram como a eternidade, até o dia em que, inexplicavelmente, viram bolhas de sabão, translúcidas, frágeis, que desaparecem no ar por encanto ou obra de um deus que passa e as leva para um reino invisível. A vida é misteriosa, como todas as suas alegrias e tristezas. Dizem que para deixar um grande amor, só mesmo uma nova história de amor. Para esquecer alguém que morre, só mesmo quando nasce uma nova pessoa que faça ...sentido. Fico pensando se isso é um remédio? Um bálsamo? Uma panacéia afetiva que tem o efeito de um chá, quando a gente volta de uma viagem e nem quer mais pegar a estrada.
Tudo o que se sabe é que o amor é um pássaro sem pouso que inspira poemas rebeldes, delicados, apaixonados, “putos da vida”, doídos feito as feridas abertas por sabres do diabo e sopradas por querubins.
O amor, meu querido, sempre vem e passa para nos deixar uma boa dose de perplexidade, de transmutação, de encantamento...Por isto, ninguém sai igual de uma história de amor. Seja o amor fraterno, censurado, quase eterno ou abandonado. São tantas as suas faces espelhadas, estilhaçando nossos pontos de vista. Por estes dias, perdi uma pessoa importante para mim, outra vez. Tento não doer tanto. Lembro que alguém me disse um dia que “quanto mais envelhecemos, mais vemos a morte de perto.” Eu sei que é factual, mas é a pura verdade.
Mas pergunto: para onde vão os “instantes”? São misteriosos como os guarda-chuvas que se perdem? Os brinquedos que desaparecem? As chaves que nunca mais se vê, deixando nossos armários fechados, sufocando as lembranças quase vivas?
Tentar segurar o amor, meu querido, é como segurar a vida. Areia que escapa entre os dedos. Castelos lambidos pelas marés. O que fica são memórias indizíveis. Os instantes passam e, quase sempre, valem pela beleza ou a crueldade de estar vivo. Outro dia perguntei ao último filósofo que conheço: "Afinal, qual é o sentido de tudo?" Ele me respondeu: " As marcas que a gente deixa, Célia. Por isso, eu deixo o melhor de mim." Então pensei nos poemas de amor e nos meus hieróglifos.
Escrito por célia musilli às 17h08
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O amor em outra dimensão
Nos últimos dias entrei em contato com a poesia dos sufistas com mais intensidade. O sufismo é a corrente contemplativa do Islamismo, trata das coisas do céu e da terra de maneira muito original: através do canto, da dança e da poesia. Já ouviram falar na dança dos dervixes? Uma espécie de transe que propicia o contato com a divindade através de movimentos rotatórios como os planetas em torno do Sol? Esta é uma compreensão da transcendência que me toca. Mais do que os cultos sisudos, as pesadas noções de pecado. Se Deus existe, deve ser a leveza, se Deus existe deve ser a beleza e a arte é sempre um modo de transcender, colocando nossa fração divina em contato com a grande luz.
Rumi foi sufi e poeta. No seu tempo, o amor devotado a Deus era embalado em versos que pareciam dedicados aos amantes ou aos enamorados. Mas eram poemas feitos para o sagrado, que se apresentavam em linguagem cifrada num período obscuro. Porque o fanatismo exigia, e ainda exige, severidade para tratar das coisas de Deus. Mas alguns devotos acreditavam num Deus amoroso, não punitivo, e expressavam seu amor sem as amarras da censura e escreviam como se tratassem das coisas da Terra quando, na verdade, a elevação permeava suas palavras. Seus versos eram como uma fonte oculta na floresta.
Os poemas de Rumi são fragmentos místicos que se encaixam formando uma grande obra. Ao mesmo tempo em que têm uma interdependência, possuem uma liberdade de sentido que se mantém mesmo quando os lemos separadamente. Esta articulação me impressiona e encanta. Deixo aqui alguns versos de Rumi e a sabedoria que está nas suas linhas e entrelinhas.
“Vem, te direi em segredo
aonde leva esta dança.
Vê como as partículas do ar
E os grãos da areia do deserto
Giram desnorteados.
Cada átomo
Feliz ou miserável
Gira apaixonado
Em torno do Sol
Ninguém fala para si mesmo em voz alta
Já que todos somos um
Falemos de outro modo
Os pés e as mãos conhecem o desejo da alma
Fechemos pois a boca e conversemos através da alma
Só a alma conhece o destino de tudo passo a passo
Vem, se te interessas, posso mostrar-te
Na verdade, somos uma só alma, tu e eu,
Nos mostramos e nos escondemos tu em mim, eu em ti,
Eis aqui o sentido profundo da minha relação contigo
Porque não existe, entre tu e eu, nem eu, nem tu...”
(Rumi, escrito entre 1552 e 1554)
Escrito por célia musilli às 19h21
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A artista plástica mineira Kity Amaral se juntou comigo para fazermos uma composição de pintura e poesia. O trabalho dela, colorido e vibrante, pode ser conferido no site www.kityamaral.com.br
Aqui deixo uma de nossas experiências.

Cerrado em pássaros e fogo , de Kity Amaral
SUÍTE
havia o desenho dos corpos e o desenho das pontes
um sobre o outro
silhuetas queimando na tarde incipiente
estivemos lá
num quarto abafado
sob um céu comovente
na hora em que os anjos
realizam o milagre da carne, sem pecado
minha boca movia-se num beijo
deixava-me ficar assim
com a língua em ondulações de serpente
carícias sobre a nudez
reentrâncias delicadas
a flor da minha pele no Saara
o calor da vida era quase insuportável
à memória desta cena
acendo candelabros de lembrança luminosa
nada escapa aos meus sentidos
muito tempo depois
quando o amor é vago
um quasar distante
você ainda me visita
com a natureza das chamas
elas fingem que se apagam
e propagam faíscas
começando outra vez o crepitar do fogo
corpo sob o corpo
miragem com que me iludo no sótão
procurando fósforos
a cada dia que nasce
nas paisagens nômades
Escrito por célia musilli às 10h54
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