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Gosto de deixar arrumadas as "casas" que construí com as pessoas que amo, ainda que a gente não more mais nelas. É que tudo é tão breve, que tenho medo de ir embora e deixar uma bagunça nos meus sentimentos...



Escrito por célia musilli às 12h35
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Nômade

 

 

caminante, no hay camino, se hace camino al andar... (Antonio Machado, poeta sevilhano) 

Vou ao lugar nenhum, aquele em que os sentidos se dissolvem, sem história, sem fios. Vou para o silêncio que, no depois do depois, reinaugura a  fantasia que o real me roubou por insistência...

http://www.youtube.com/watch?v=cONGUQsTQaQ

 



Escrito por célia musilli às 16h45
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Ilustração: Marcos Jakobsen 


Um instante sobre a saudade


Só quando ganhamos noção do tempo, tomamos consciência do que significa 'nunca mais'

 

A saudade é um fio tecido nas horas, nos dias, nos anos, matéria fina e imprecisa do tempo. Pode acontecer assim que a porta se fecha ou muito anos depois, quando velhas fotografias escapam das gavetas com personagens que não estão mais aqui mas nunca saíram de nossas vidas. A saudade é um sopro da memória, imagem de crianças brincando, afetos se derretendo em ternuras, velhos ao redor do fogo.

Meu pensamento às vezes visita um longínquo jogo de bola, o formato de um bolo, a vergonha de usar um vestido de alças, o dedo que se prendeu na porta quando nossas dores eram apenas físicas. Só depois conhecemos as dores da alma, o contato com a  angústia quando deciframos o significado do que se sente e que não vem de nenhum corte que se cura com band-aid. 

Não me disseram que não haveria cura para o que fica sem resposta, para o impacto das notícias ruins, para as perdas que não se resgatam. Durante muito tempo , achava que tudo era reversível como se nenhuma sensação durasse mais do que o instante em que as coisas acontecem. Só quando ganhamos noção do tempo, tomamos consciência do que significa “nunca mais”, “adeus”, “ não se esqueça de mim”  e outras expressões que servem de sinal ou de consolo para coisas que não se repetem, como fotogramas que ficam para trás substituídos por outras imagens. 

A sucessão de acontecimentos em nossas vidas obedece a uma ordem imprecisa, estamos aqui hoje, podemos não estar amanhã, não há lógica no vácuo, nas ausências que acontecem de repente como um botão arrancado onde haveria flor, brisa e movimento.

Se hoje volto ao assunto das minhas sensações mais íntimas, não é por tristeza ou um acontecimento súbito. Nem sequer estou triste, apenas afio o meu olhar, a visão em 360 graus, recapitulando um mar de emoções, de cheias e refluxos, de felicidades e sustos, de tensões e relaxamentos, de surpresas e esperas. De fluxos.  A saudade neste instante é minha musa. O espelho retrovisor mostrando um disco na vitrola, uma sessão de cinema, um amigo fazendo música, um beijo trocado, um amor e sempre alguns rostos que se distinguem na multidão como se a mente fizesse um zoom.

O pensamento é o único mecanismo que nos faz voltar ao tempo mas nunca  às mesmas horas, aos mesmos dias, aos mesmos anos, porque a sucessão das coisas é a inexorável passagem  que nos leva adiante, deixando para trás aquilo que se perdeu. Por isso hoje, quando reviro os fotogramas da memória, considero que há um filme pela metade mas ainda sem desfecho, uma história que pode ser escrita enquanto houver tempo, tinta, sangue e  espaços em branco. E haveria muito mais a dizer, mas a rota circular do tempo não permite que se demore em fatos perdidos, páginas viradas, leite derramado sobre o tapete mágico da existência.

Alguma coisa me diz: Não se demore sobre o passado, sobre as perdas e ganhos. Apenas puxe o fio da memória como quem visita a sua casa interior, abrindo salas, quartos , varandas onde a mobília afetiva permanece com a imaterialidade própria do amor e das ternuras que dão origem à saudade. Este sentimento condensado numa língua única e que significa o “banzo” de cada um de nós, exilados do que vivemos como passageiros sem bilhete de volta.

 

(Crônica publicada na Folha de Londrina em 05/02/2012, com 19 compartilhamentos no Facebook, que matéria fina é a saudade)



Escrito por célia musilli às 01h03
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 Foto: Elena Kalis


LÍGIA

eu sou a lenda  da mulher inexistente

só me vê  quem me consente

na solidão do encantamento de Ulisses

pérola entre os corais  

bailarina em ponta nos cristais

esfinge verde dos cabelos lisos

 

canto confundindo as marés

sopro barcos ao vento do desconhecido

deixo pegadas na areia

envio cartas de sereia

onde nada permanece escrito...


(Do livro Sensível Desafio/ 2006/ Foto: Elena Kalis)



Escrito por célia musilli às 07h49
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Gravura: Camille Flammarion

 

Sem as nuvens que dançam

Existem dias imóveis. Corpo que se recusa ao gesto, uma preguiça que dói e lá no fundo o desejo de romper o círculo invisível. Não gosto de mim quando não busco palavras nem caminho na aurora. Não gosto de mim quando me escapam os vocabulários e um mundo sem sons deixa o corpo fechado. Mas tenho uma aceitação de mim, um profundo respeito pelos estados de espírito que não compreendo e às vezes acho que luto  desde que nasci para vencer o inesperado imobilismo que me segura numa teia de vidro, absorta.

Há dias em que me sinto uma conserva, há outros em que movimentos de dança instalam-se em meus quadris e danço a rumba sensual que vem de um DNA desconhecido. Nunca tive explicação para meus humores, nem as procurei. Deixei-me ficar assim como um animal entregue aos desassossegos. Às vezes me ocupo de mim e até me preocupo, adivinhando a coisa inerte que pode ser o futuro quando todas as queixas se calam e os desejos são postos para dormir.Mas não quero, apesar da enorme aceitação de mim.

Quis muitas vezes que alguém caísse comigo na vertigem da vida, quis companhia para os passos da dança, um pas-des-deux disciplicente. Mas os bailarinos nem sempre me compreendem ou não me faço entender. Esta coisa de linguagem e língua dá um trabalho dos diabos, dissolve-se a comunicação num átimo, ainda que tenhamos escrito milhares de frases e as palavras escorram como chocolate pelos cantos da boca.

Antes um sinal de fumaça, se é pra acordar assim sem movimento e sem explicação para a preguiça dolorida que me faz fixar os olhos no teto e a língua no céu da boca, sem avistar nem inventar as nuvens que dançam...



Escrito por célia musilli às 16h17
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Foto: David Hamilton

 

afine os sentidos/ levo uma concha aos seus ouvidos



Escrito por célia musilli às 10h40
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E isto é 'it'

Clarice Lispector perseguia o sentido das coisas e não apenas sua representação 

Seguir o coração é uma proeza para poucos. A maioria fica no meio do caminho, assombrada com a possibilidade de fazer descobertas que possam pesar, transformar, romper, lançar cada um de nós no desconhecido. Clarice Lispector foi uma escritora que gostava de viver à beira do abismo, não tinha medo de sentir e seu mérito era também sua maldição. Se eu fosse dizer que Clarice morreu de alguma coisa, diria que morreu de sentir. A impressão ficou mais clara quando acabei de ler a biografia “Clarice”, (Cosac Naify)  escrita pelo norte-americano Benjamin Moser e traduzida magnificamente por José Geraldo Couto que me disse por e-mail: "Foi um trabalho que adorei fazer, porque o texto do Benjamin é muito bom e porque sou admirador de carteirinha de Clarice." A obra foi lançada no ano passado em duas edições: uma luxuosa, outra em formato de bolso, gordinha com suas 652 páginas que chegam a 748 com as referências.

Das biografias que li, esta é a mais completa, conta o que não havia sido contado antes sobre Clarice, seu desejo de salvar a mãe a partir de seu próprio nascimento, coisa impossível, já que a mãe padecia de uma doença incurável. A busca pela salvação parece permear  sua vida e sua  obra. Se não podia salvar a mãe quem sabe pudesse salvar a si mesma pelas palavras. E foi o que fez, se não para tornar-se uma escritora de sucesso – há indícios de que  sofria com a fama -  pelo menos para tentar compreender o sentido da vida: algo que ela coloca muito além da linguagem. Clarice perseguia as “coisas”, não apenas sua representação. Isso fica claro no livro “Água Viva”, considerado “literatura abstrata”, feita mais para ser sentida do que compreendida.

O livro se dá como uma série de impressões, sentimentos, emoções pulsantes, nele Clarice parece tentar apreender o tempo. Diz Benjamin Moser: “A forma fragmentária (da escrita), transmite a sensação real de estar vivo....a narradora, e com ela o leitor, está atenta a cada instante que passa e eletrizada pela triste beleza de seu inescapável destino: a morte, que se aproxima a cada tique-taque do relógio.”

Aquilo que não conhece ou é impenetrável Clarice chama neste livro de “it”, o pronome neutro em inglês. Assim, muitas coisas são “it”, como Deus é “it”, por todo o mistério que seu nome carrega. Se alguns consideram a literatura de Clarice hermética talvez seja porque ela mostra o quanto de oculto tem a própria a vida. A escritora demonstra em muitos momentos a sua busca de Deus, o maior mistério, o maior “it”.

Em “Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres” ela diz: “Embora não sendo humano, Ele às vezes nos diviniza.” É este divino, presente em todas as coisas, que Clarice busca ardentemente, numa corrida atrás das essências e também do quanto podemos ou não podemos determinar nosso destino. Não à toa em seu último livro “ A Hora da Estrela” ela escreve  páginas e páginas antes de decidir se a personagem Macabéa vai  morrer ou não depois de ser atropelada. Macabéa morre, mas antes a autora sonda todas as possibilidades, dando  ao leitor a medida do poder da criação, mas separando criação e destino. Macabéa morre depois de uma cartomante  lhe dizer que seria muito feliz, que sua vida mudaria completamente. Ela sai acreditando no que ouve e Clarice escreve: “Madama tinha razão: Jesus enfim prestava atenção nela.” A frase também nos dá a medida da inocência que mata e da verdade que extrapola a linguagem. Clarice queria dizer que nada sabemos de tudo, que não dominamos os acontecimentos. E isto é “it”.



Escrito por célia musilli às 10h46
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E agora...praia, onde não é só o corpo que fica nu, é a alma...



Escrito por célia musilli às 21h35
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E 2011 se foi...sem deixar saudade....



Escrito por célia musilli às 15h46
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Em 2012 desejo ouvir mais e falar menos...



Escrito por célia musilli às 17h48
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São Paulo - artista : Cranio (Imagens: Belo Monte/ Facebook)

 

Belo Monte e Cia

Tem muita manifestação acontecendo nas ruas, quem registrar alguma envie com nome da rua e a cidade para belomontefilme@gmail.com


 

Protesto contra Belo Monte - Belém (PA) - artistas: Mundano, Ed e Graffi



Escrito por célia musilli às 23h02
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Estou de volta ao Atacama
 

O Atacama é o deserto mais árido do mundo. Fica ao norte do Chile e, por causa da sua altitude, as nuvens úmidas nunca chegam ao seu território. O Atacama tem temperaturas incríveis: 0 grau de noite, 40 de dia. E atrai todo tipo de pessoas:  fotógrafos, astrônomos, cientistas, jornalistas, motociclistas, aventureiros. Eles se cruzam numa cidade a 2.400 metros de altitude: São Pedro do Atacama, um oásis  que tem vinho e hospedagem. 

Estou falando do Atacama porque estive lá, a 2.400 metros de altura.

Mas meu deserto é uma paisagem interior para onde migramos quando a nossa vida pede recolhimento, uma conversa interna que não pode ser substituída por diálogos nem mesmo com o melhor amigo. É possível que nosso monólogo não nos leve a lugar algum e que voltemos à vida apenas como nômades, de passagem. Estamos no Atacama quando nos sentimos no deserto onde, por incrível que pareça, descobrimos beleza na paisagem árida. Foi assim que descobri o Valle de la Luna, um cenário perdido em minha alma, um cartão-postal de areias alaranjadas e uma grande lua, como as lembranças que espanamos e delas saltam situações inverossímeis. Resolvi falar sobre isso, embora seja difícil contar o que se passa.

 - Nos sentimos no Atacama quando falamos e ninguém escuta.

 - Nos sentimos no Atacama quando o nosso melhor amigo parece outra pessoa.

 - Nos sentimos no Atacama quando a noite é uma confluência de estrelas frias.

 - Nos sentimos no Atacama quando mergulhamos e não trazemos nenhum peixe no bico.

 - Nos sentimos no Atacama quando não há alimento e o ar é pesado e rarefeito.

 - Nos sentimos no Atacama quando sufocamos devido à nossa própria altitude. 

- Nos sentimos no Atacama quando o sonho não cabe na realidade.

- Nos sentimos no Atacama quando somos surpreendidos pela mudança do vento que carrega para longe nossas mais íntimas verdades. 

- Nos sentimos no Atacama quando não chove sobre nossos planos.

- Nos sentimos no Atacama quando as ternuras se desmancham.

- Nos sentimos no Atacama quando o silêncio é antigo e a palavra fica suspensa por tempo indeterminado.

- Nos sentimos no Atacama quando não há sinais de satélite e a comunicação não atravessa as barreiras. 

- Nos sentimos no Atacama quando a poesia é decantada como um licor que não se toma.

 Só voltamos do Atacama quando a gente se embriaga da esperança e arruma as mochilas para viajar para o Sul. É lá, na confluência da civilização com a primitividade, que nos descobrimos herdeiros da extrema angústia que plana sobre a beleza solitária do Valle de la Luna. Porque a solidão pode ser assim, uma paisagem surpreendente. 

Então, a vida supera a aridez e nos faz descer das montanhas, como um lagarto queimado pelo sol. Eu não fui ao Atacama, mas cruzei a terra árida. E hoje volto nômade de mim.  Preciso refazer as rotas com mais força e menos delicadeza. Renda-de-bilro espetada na flor do mandacaru.



Escrito por célia musilli às 13h38
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Desabafo do Papai Noel

Que me perdoem os inocentes e os politicamente corretos, mas estou de saco cheio do Natal! Nos vestimos de Papail Noel mas somos totalmente falsificados, geralmente somos caras humildes contratados para "pagar o mico" nas lojas. Oh! tédio, passamos de humilhados a mitificados para conferir magia ao que não podemos comprar. A ceia só existe para se vender mais perus, a data é usada por todos para tomar um porre - mais um porre - sem falar nas campanhas para distribuir presentes a criancinhas que ficam esquecidas no resto do ano, olhando vitrines com aquele olho comprido.

Estas musiquinhas e jingle bells me dão uma nostalgia danada, ainda mais se forem tocadas por harpas paraguaias, sinto saudades do tempo em que até eu acreditava que era mesmo Papai Noel. Ando decepcionado com a humanidade e de saco cheio do Natal. E meu saco não é de presentes. Ponto.



Escrito por célia musilli às 17h04
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Cena de "Um Cão Andaluz"

 

 

O cinema dos sonhos


Em tempos de cinema comercial e séries crepusculares, os filmes dos anos 20 ainda são revolucionários


 

No início do século 20, o cinema de vanguarda abriu as portas da percepção ao público. Transpondo limites, os filmes ofereciam um mergulho no inconsciente a partir das imagens cinematográficas. A ideia de um mundo avesso e secreto, transformado pela Psicanálise em objeto de estudo a partir das considerações de Freud, permitiu uma aproximação do cinema com o universo dos sonhos, percepções que na tela ganharam espaço através de uma fusão de imagens por associações livres. Surgiu assim “Um Cão Andaluz”, do espanhol Luis Buñuel, que se tornou peça emblemática do cinema surrealista.

Em “Um Cão Andaluz” (1928), co-dirigido por Salvador Dalí, Buñuel entra no domínio dos sonhos, revelando nas salas escuras pontos mal iluminados da mente humana, sem nenhuma preocupação lógica com a realidade, explodindo os limites de tempo e espaço, princípios básicos da narrativa literária e cinematográfica.

O Primeiro Manifesto Surrealista, de André Breton (1924), influenciou Buñuel para a dissolução dos limites entre a realidade e o fantástico. Desejando colocar abaixo o senso comum, Breton uniu a ideia de “mudar de vida” de Rimbaud, com a ideia de “mudar o mundo” de Marx.

Mais que uma revolução estética, o cinema de Buñuel, nesta fase, incorpora a ideia de uma liberação de desejos, saltam para a tela imagens que estariam aprisionadas na mente por imposição da cultura que só permitia uma existência linear, cheia de convenções que impunham também uma estética.

A implosão das regras em “Um Cão Andaluz” surgiu como um libelo que traz imagens absurdas, sequências desconexas e nenhuma preocupação com a continuidade.  Buñuel encampava assim o “maravilhoso surreal,” entrando no inconsciente para liberar desejos  e - por que, não? - acionar a libido, criando uma obra aberta a toda fantasia.

Entre as inovações do filme, que vale a pena ser visto ou revisto,  está a supressão da narrativa literária, então atrelada ao enredo dos filmes. Os letreiros em “Um Cão Andaluz” propõem  uma cronologia imediatamente subvertida. A mesma cena é repetida em lugares diferentes, em tempos diferentes. Um objeto que estava em cena desaparece sem explicação na sequência.

 A emblemática cena de abertura, com um personagem que afia uma lâmina para inseri-la de forma cirúrgica no olho de outra personagem, pode ser comparada ao descortinar dolorido de um olhar novo para a recepção deste tipo de arte, uma recepção para a qual o público ainda oferece resistência.

Ao causar no espectador o impacto de uma incisão, o filme propõe a cirurgia necessária para o entendimento do surreal, ainda que doa. Mas esta é apenas uma leitura, entre tantas possíveis. Em tempos de cinema comercial, séries crepusculares e comédias bobinhas, a impressão é que a vanguarda foi extinta como certas espécies do planeta. Olhando pelo espelho retrovisor as propostas estéticas dos anos 20/30, nota-se que não há nada de novo sob as câmeras. Os contemporâneos, quando muito , repetem lições do passado.



Escrito por célia musilli às 09h17
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Beleza em flagrante


Recebi este vídeo que considero uma explosão de beleza. Ele deve ser visto em tela cheia, o cinegrafista e o editor de imagens foram muito sensíveis. A sequência do beija-flor voando atrás de um inseto é quase inacreditável, assim como as borboletas azuis em câmera lenta. Já a revoada das borboletas amarelas é a síntese da maravilha, os índios chamam este fenômeno de panapaná, palavra que me lembra o "barulho" das asas quando elas voam em bando. Assistindo ao vídeo, fiquei pensando nas lições da natureza: os bichos comem, bebem, amam, se arriscam. Quem dorme no ponto é o homem com suas neuroses, medos, trapaças, dissimulações e economia do que seria, simplesmente, VIDA. 



Escrito por célia musilli às 12h10
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