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sensivel desafio


Ela tinha um coração de pássaro que se sobressaltava. Talvez não fosse o coração, mas o ouvido, que se alarmava com o toque do telefone, os passos dos insetos, o ronronar do gato na cozinha, enquanto ela ficava no quarto, num falso silêncio. Porque na sua cabeça os sons não paravam nunca, sempre havia um trecho do Bolero de Ravel, uma música de Tom Waits, o refrão de Quizás, Quizás, Quizás. 

Em dias de chuva, as goteiras pareciam agulha alinhavando a água, ruído fino como se a costura nas moléculas de H²O resultassem num grito de VIDA, uma emergência na qual ela estava tão mergulhada que tudo se redimensionava. Os barulhos dobravam, o tato ardia, a fala estendia-se por um vocabulário desconhecido. Porque há palavras que se desconhecem, misteriosas como o éter que não tem forma, mas existe.

 

Aquilo que dependia do olhar era tão grandioso quanto o que se ouvia. Tudo fazia parte do redimensionamento da VIDA. Porque ela tinha um coração de pássaro que se impressionava enormemente e também se deslumbrava como quem vê taças de cristal em tempos de vidro, selos secretos em tempos sem carta...Quando chovia, acontecia este exagero e um revoar da memória. Ruídos e imagens da infância, tudo tão datado que todos os poemas nasciam em 1960.

 

Assim, delicadamente suscetível, era melhor nem sair de casa. Desistia dos encontros e dos contatos, das conversas banais nos botequins hilários.

Nestes dias, esperava a delicadeza passar para não assustar as pessoas e se dedicava a imagens de cristal, gotas de chuva, ecos de conversas, crianças numa ciranda, o peixe no aquário, um poema de 1960. A sutileza por sua conta e risco.



Escrito por célia musilli às 15h08
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Solitude

 

Quando me sinto sozinha não é a solidão da navalha que faz a autópsia revelando as dobras, tecidos onde se instalam emoções baratas, pulsações que correm, correm, até que escorrem, quando há uma incisão no pensamento. O pensamento dilata veias nas minhas têmporas, mas não é desta solidão que falo, de sentir o próprio sangue como um relógio que diz tic tac, até que um dia, tac..e o tempo pára.

 

Quando me sinto sozinha, não é a solidão da morte, de Tanatos e sua face escura. O que sinto é a solidão da festa, quando pego meu cavalo alado e subo para ver a multidão de cima.  E a multidão se esfrega mostrando a genitália, trocando uns goles, como quem se beija....Carnaval do prazer ambíguo e real do corpo a corpo,  boca a boca, língua enrijecida, vontade flácida, movimento da galera num barco de euforias, madrugada estelar na maior cidade do planeta...

 

A solidão de que falo não tem a dor do apartheid nem do isolamento. É algo assim como sentir tédio no meio da torcida e ir pra casa como um desenganado social ou um mamute que se perdeu do bando, reeditando a era do gelo.

 

A solidão sideral não se alimenta de fogos nem se ilude com goles, o tilintar dos cubos boiando no uísque, a cerveja em copos que se abrem como tulipas, o champanhe que borbulha como uma fonte erótica de Roma...

 

Acho tudo bonito, cinematográfico. Mas a solidão de que falo é um monólogo para poucos. Um tête-à-tête de sussurros que despertam em mim um animal intenso.

 

A solidão que sinto não me faz querer companhia, não destas que se oferecem nos balcões sebentos ou no banquete em que todos se comem com talher de prata. Nada disso tem a ver comigo e se o faço é por pura concessão, ironizando os protocolos.

 

A solidão que sinto tem a humanidade que vinga como uma flor à luz do dia, com pétalas e raízes aquecidas. Brotando, crescendo e morrendo como um girassol de floração única, suspenso em seus próprios atos. É a solidão do ciclo de ser mais uma em campo, deitando sementes, como quem deita palavras, polinizando vazios como um  exercício de BELEZA!...



Escrito por célia musilli às 15h56
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Morre o amigo de 'Ben'

Ainda me lembro dele como um garoto cantando “Ben”. A letra desta música fala de um ratinho que ninguém queria por perto, referindo-se a uma repulsa que, de certa forma, Michael Jackson também causaria, a partir da sua estampa transformada durante décadas.

Nos últimos tempos, bem antes da comoção provocada agora pela sua morte, ele era lembrado como a figura deformada que investia em plásticas para se “curar” da negação de si mesmo. Devia ter seus motivos para esta busca desesperada de ser outra pessoa.

Apesar da fama, decerto havia a lembrança de quando era um garoto negro e pobre nos Estados Unidos, país racista por excelência. Lá um negro pobre só é aceito depois de comprovar um talento acima do comum, uma voz que ofusca estrelas, um corpo que se move com todos os molejos, um carisma que molda líderes como Martin Luther King ou Barack Obama.

 

Michael Jackson não enfrentou apenas condições “impróprias” para chegar à fama no país dos louros bem-sucedidos. Enfrentou a abdicação da sua própria infância porque, com seu talento precoce, começou a cantar com cinco anos, aos 11  já era um fenômeno do hit parade.

 

Não é de se estranhar que num canto de sua alma estivesse escondido um garoto abortado, que sonhava com os heróis da Disney a ponto de querê-los bem perto, nem que fosse num mundo ainda mais fake do que a própria Disney: um rancho de luxo ao qual ele chamou Neverland  ou Terra do Nunca, um lugar onde ninguém cresce. Da infância abortada à acusação de pedofilia foi um pulo. E o adulto deformado haveria de pagar com dólares o “relaxamento” da acusação  judicial que deu à família do menino, de quem ele teria abusado, a quantia de US$ 20 milhões.

 

Nunca entendi porque se lava um escândalo com grana e as piores acusações vão para baixo do tapete quando os “ofendidos” são ...indenizados. Assim foi esquecida a acusação de pedofilia que pesava sobre Michael Jackson e ninguém nunca soube por que os pais do garoto, de quem ele teria sido o algoz, consentiram, durante anos, numa amizade que colocava o filho à mercê do lobo-mau, que morava numa casa-fantasia que era a imitação da Disney.

De qualquer forma, se alguém tinha que pagar pelas contradições era o superstar, que podia pagar por elas. O avesso da história permaneceu num silêncio suspeitíssimo que custou ao cantor US$ 20 milhões.

 

Jackson era o tipo de pessoa que se deixava explorar. Indenizou irmãos, parentes, amigos que se tornaram inimigos. Todos tiraram sua parte da fortuna que parecia não terminar nunca. Até a atriz que foi sua partner no clipe Thrilller - maior sucesso de sua carreira – reclamou indenização pelo trabalho, muitos anos depois de participar do vídeo. À certa altura, ela considerou que, na época, não tinha sido bem paga. Enfim, levou a fama e um pouco mais de grana.

 

Michael Jackson curava suas angústias com quilos de medicamentos contra a dor, ninguém sabe direito que tipo de dor. Desconfio que destas que se alojam na alma e para as quais não existem analgésicos. Também tratava suas angústias realizando desejos excêntricos que empresários megalomaníacos colocavam a seus pés, porque ao seu lado tudo era possível. Assim, comprou Neverland porque amava a Disney, comprou os direitos autorais das composições dos Beatles porque amava os Beatles. No fundo, como uma máquina de realizações, quis comprar a felicidade, imaginando que os dólares seriam suficientes e não acabariam nunca.

 

Um dia, como se fosse roubado pelos quarenta ladrões, descobriu que já não estava tão rico. E, passados muitos anos de sua última turnê, resolveu fazer outra. Mas, desta vez, morreu antes, sem ouvir os aplausos nem realizar mais uma fantasia de poder que foi também o palco do seu sacrifício. Poucos astros encarnam, como Michael Jackson, o ápice da fantasia, o excesso fake derramado como uma doença que se alimenta do talento até consumi-lo.

 

Ele sai deste mundo sob suas próprias cinzas, como uma Fênix que não ressurgiu a tempo. Mas que cinzas! Sob seus pés elas parecem dançar como a poeira estelar que se desprendia quando ele fazia o passo que o eternizou: moonwalk...Aquele movimento deslizante, para trás, que dava a impressão de um artista que andava mesmo no mundo da Lua. Um ser que não pertencia a este mundo. Um adulto deformado que, ultimamente, ninguém queria por perto. Tanto que morreu praticamente sozinho. Ou quem sabe Ben, o ratinho, estivesse lá, como na letra da música que o lançou à fama, como um garoto negro e pobre que expressava a rejeição cantando assim:

 


Ben, a maioria das pessoas mandaria você embora
Eu não escuto uma palavra do que eles dizem
Eles não veem você como eu vejo
Eu gostaria que eles tentassem
Tenho certeza de que eles pensariam novamente
Se eles tivessem um amigo como o Ben...’



Escrito por célia musilli às 16h00
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Primeiro ato

 

falo do falo do afeto

delicadeza

de se alisar com a mão

como se colhe o fruto improvável

até o sumo à espera

verter no ato da devoração

 

falo do falo do afeto

aos homens loucos

aos homens poucos

aos homens vãos



Escrito por célia musilli às 19h34
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Quando o tempo dança

 

 

Hoje dei meu livro pra um amigo recente, o bailarino do grupo Espanca! Sérgio Penna, que dança com a leveza de um praticante de Tai Chi Chuan...Ele veio dizer que tinha lido minha matéria sobre o “Congresso Internacional do Medo” e falou - com a gentileza que prezo nas pessoas - que havia gostado do texto. Então, eu que estava com um dos meus livros, dei um presente a ele, com a dedicatória: “Ao Sérgio, as dúvidas e doçuras da minha poesia...”  Foi a primeira frase que me veio à cabeça, a que melhor corresponde às minhas perplexidades...Porque a poesia é sempre dúvida e doce...Uma linguagem que se articula, meio bastarda, meio rebelde, espontânea... sujeita  a decifrações.

 

O Sérgio já estava de saída, o grupo Espanca! faz hoje sua última apresentação no FILO e tudo termina.  Por isso não quis esperar pra lhe dar o livro. Sou contra as esperas, não confio no tempo, ele é um jogo que reverte a  sorte. Sou fatalista, temo perder tempo e desencontrar pessoas, nunca mais vê-las sob o sol do meio-dia, num 21 de junho que marca o início/solstício do inverno e suas sinfonias de céus azuis e noites solitárias, cheias de estrelas distantes, como os amigos que sabemos que estão lá, em algum lugar, embora a gente não os alcance. Tenho muitos amigos estelares, quasares, constelações há anos-luz...intermitentes.

 

Porque há um momento em que não alcançamos as pessoas, nos falta a linguagem, a vogal, a consoante, a construção de uma ideia que toque o outro...Por isso, às vezes, temos perguntas sem respostas.É quando não tocamos o outro ou tocamos tão profundamente que as sílabas suspensas não formam nenhuma língua...só o sentimento. E o sentimento nem sempre cabe em palavras, transborda para um silêncio estelar...

 

Então, dando uma pausa à filosofia, vou ver os amigos na festa de despedida do FILO, daqui a pouco, quando se encerra mais uma etapa que não se repete, não se repete, não se repete..como tantos momentos que tentamos agarrar com as mãos...Batidas cardíacas do tempo que não volta, não volta...Mas sempre haverá quem dance, enquanto bater o tambor.



Escrito por célia musilli às 20h12
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Congresso Internacional do Medo, grupo Espanca! (BH)

 

Congresso para debater o medo

Grupo Espanca! traz ao FILO espetáculo que discute os temores humanos

Um congresso que reúne representantes de diferentes países, culturas, línguas. Um congresso que, à primeira vista, pode se parecer com um destes locais de reuniões intermináveis, em que todos falam para não chegar à conclusão alguma. Mas, só à primeira vista.

Na versão do grupo Espanca! – em cartaz no Teatro FILO de 19 a 21 de junho - a situação de juntar pessoas para uma conversa sem fim ganha novas cores e bandeiras, ao se criar um espaço fictício para reunir personagens que têm em comum os mesmos medos.

Em “Congresso Internacional do Medo” - título de um poema de Carlos Drummond de Andrade que batiza a montagem sem servir de referência direta - o que está em jogo é o receio de várias coisas, algumas bem subjetivas, e não o temor às hecatombes ou atos terroristas que mobilizam nações para debater os problemas dos novos tempos.

O que provoca o medo, no caso do espetáculo, é o risco iminente de morrer, como explica a diretora e dramaturga Grace Passô em entrevista: “O espetáculo trata dos sentimentos humanos dentro de uma temática existencialista, abordando, sobretudo, o medo da morte.”

O existencialismo também pontua outros trabalhos do grupo, como “Por Elise” – primeiro sucesso do Espanca! em nível nacional – e “Amores Surdos”, ambos com abordagens delicadas sobre os afetos.

Neste espetáculo, o que está em xeque é o risco de viver dentro de uma perspectiva efêmera, num estado provisório, o que dá aos integrantes do congresso farto material de reflexão, que fatalmente irá reverberar na plateia.

Misturas inusitadas 

Para criar o ambiente de um congresso, com uma tessitura criativa, o grupo se valeu de países e línguas – algumas inventadas – colocando em cena personagens que misturam traços de várias culturas. É sobre este tecido diversificado que se passam as ações.

O ambiente frontal e único da mesa de um congresso - como explica a atriz Izabel Stewart - é repleto de signos que se abrem a outras leituras: “Para o grupo foi um desafio montar o espaço formal de um congresso dentro de uma situação nova, criando uma relação teatral com o tema”, ela diz. 

O figurino é todo branco, dando idéia de igualdade, mas com referências múltiplas: há um índio, que escapa ao estereótipo do indígena, uma mulher que veste burka e comporta-se de forma suave e delicada, um português poético que se veste como um africano. A mistura é proposital, criando a diversidade, mas fugindo aos padrões.

A diversidade pode ser vista também como uma condição do planeta, mas no espetáculo aponta, principalmente, para a diversidade brasileira, país de muitas características, como explica Grace Passô, falando da abrangência da montagem à longa ou curta distância.

Outro desafio, segundo Grace, foi utilizar a palavra como um recurso criativo que extrapola o modo com que falamos, não só através das línguas inventadas, como nos desdobramentos que vão além dos signos verbais para propor outras linguagens, como a dos bailarinos em cena, “falando com o corpo.”  Em resumo, no espetáculo nenhum elemento está ali em vão: neste congresso muito se fala e muito se diz.

Convite à reflexão

Para o grupo, a montagem é antes de tudo um convite para o espectador pensar na vida, não como coadjuvante de um processo, mas sendo a própria razão da existência.

Sobre a possibilidade do espetáculo criticar o modo de vida contemporâneo, a resposta vem de forma muito clara: “Se há uma crítica, ela é feita de forma inteligente, não panfletária. Não nos colocamos no lugar das pessoas certas que criticam os erros. Pelo contrário, nos inserimos num contexto em que as contradições estão presentes o tempo inteiro, fazendo parte também dos erros e dos acertos, colocando simplesmente a questão: como podemos resolver tudo isto?”, afirma Sérgio Penna, bailarino e ator do grupo.

Ao que parece, oferece-se ao espectador uma abordagem que extrapola o senso comum para propor novos modos de se olhar a existência, com a consciência do que é “viver”.  E viver pode ser um ato muito mais rico do que passar pelos dias.

Assim, o grupo Espanca! - sempre apto a criar situações insólitas – se propõe a deslocar a realidade para novas leituras a partir de fatos comuns, como o da criação de um congresso onde se falam muitas línguas e linguagens. Enfim, uma Torre de Babel cheia de referências, humor e poesia.

Serviço

Espetáculo: “Congresso Internacional do Medo”.
Companhia: Grupo Espanca! (Belo Horizonte MG)
Classificação: Teatro adulto
Faixa etária: a partir de 12 anos
Dias: 19, 20 e 21 de junho
Horário: 21h30
Local: Teatro FILO (Rua Cuiabá, 39)
Duração: 60 minutos 

Texto reproduzido nos sites www.filo.art.br e www.aplausobrasil.com.br



Escrito por célia musilli às 08h37
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Ballet de Londrina

Sob o signo da ousadia

 

Ballet de Londrina estreia no FILO  'Para Acordar os Homens e Adormecer as Crianças'

 

 

Experimentar o corpo é também experimentar a dor. Experimentar o crescimento, passando da infância à idade adulta, provoca a angústia da transformação, tão natural quanto conflituosa. Partindo deste sentimento e

inspirado no poema “Canção Amiga”, de Carlos Drummond de Andrade, o Ballet de Londrina criou sua nova coreografia, que estreia hoje (17) no FILO, trazendo no título um verso do poeta mineiro: “Para Acordar os Homens e Adormecer as Crianças.”

 

O novo balé traz momentos tranquilos como uma canção de ninar e outros tão vigorosos que despertam o público, alternando climas que perpassam a coreografia que está entre as mais vibrantes já desenvolvidas pelo grupo.

O diretor da companhia e atual secretário da Cultura de Londrina, Leonardo Ramos, enfatizou em entrevista que o novo espetáculo é o mais complexo da trajetória do Ballet que completa 16 anos em 2009.

 

Investindo na dança horizontal - que mantém os bailarinos no solo em instigantes eixos de equilíbrio - desenvolvida pelo Ballet em seus dois últimos trabalhos (“Romeu e Julieta” e “Decalque”), o grupo chega ao ápice desta exploração coreográfica, numa jornada que o coloca entre as companhias nacionais que mais investem na pesquisa de linguagem continuada, o que não significa uma repetição de fórmulas. Ao contrário, o novo trabalho sugere inovações sob muitos aspectos, colocando-se como uma peça “up”, que mantém o público em alto astral durante todo o espetáculo.   

 

Mosaico de movimentos

 

Leonardo Ramos explica que o Ballet reuniu ”frases coreográficas que vinham sendo pesquisadas há algum tempo, muitas criadas em laboratórios”. Assim,

“Para Acordar os Homens e Adormecer as Crianças” forma um mosaico que paradoxalmente se desenvolve sem quebras, com cenas bem costuradas criando, ao final, uma obra fluente. Não há movimentos a mais ou menos, nem cenas que pareçam longas ou desnecessárias, há em tudo uma dinâmica que “acorda” a platéia por sua concepção vibrante.

 

A contemporaneidade também está presente na trilha sonora, descoberta numa pesquisa empreendida na internet por Leonardo Ramos, que acabou chegando ao site do The Silence Ballet, revista da Columbia (EUA) que disponibiliza músicas de bandas do pós-rock. A trilha encaixa-se na proposta da companhia que, desta vez, apresenta uma obra pontuada por um clima juvenil. Em alguns momentos, os bailarinos movimentam-se como os frequentadores das boates, numa referência ao ritmo das baladas. Segundo Leonardo, a proposta era justamente “criar esta identificação, mostrando como as pessoas dançam.”

 

Jovem bailarino

 

Uma das boas surpresas do novo trabalho é a participação de um jovem bailarino: Vitor Rodrigues, 13 anos, que estréia com desenvoltura. Além de compor com o veterano Marciano Boletti passagens marcantes, como citações a gerações distintas, Vitor faz solos, “alguns criados por ele mesmo e que reproduzem os movimentos de um menino,” explica Leonardo.

 

Do começo ao fim, “Para Acordar os Homens e Adormecer as Crianças” faz referências ao crescimento, alternando infância e maturidade em passagens tocantes, como o “mar” que surge em dado momento, composto pelas ondas de um grande tecido preto, sobre o qual os bailarinos dançam. Lúdica, a coreografia traz movimentos infantis e uma composição de afetos que se expressam em gestos ternos ou doloridos, remetendo a uma obra muito humana. 

 

O figurino em preto e branco, criado por Ana Carolina Ribeiro, lembra a energia ying/ yang, feminina e masculina, pelo contraste que proporciona ao espetáculo um acento de contemporaneidade sóbria. Assim, o Ballet de Londrina mostra novas facetas de seu trabalho, cumprindo o desafio de inovar sem perder as características que reforçam a maturidade de um grupo consolidado por suas ousadias.

 

 

SERVIÇO

Espetáculo: “Para Acordar os Homens e Adormecer as Crianças”

Companhia: Ballet de Londrina

Origem: Londrina (PR)

Dias: 17, 18 e 19 de junho

Horário: 20h30

Local: Teatro Ouro Verde

 

(Texto: Célia Musilli/ Foto: Fábio Alcover) 

Texto reproduzido dos sites www.filo.art.br e www.aplausobrasil.com.br



Escrito por célia musilli às 14h54
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Matteo Belli apresenta "Inferno di Dante- Visita Guidata" hoje no FILO

A palavra cênica de Matteo Belli

“Inferno di Dante – Visita Guidata”, performance corporal e vocal do ator italiano Matteo Belli sobre a “Divina Comédia”, de Dante Alighieri (1265 – 1321), é atração neste domingo no FILO. O espetáculo faz parte do evento Voz.Performance.Jogo.Poesia.Corpo, que integra o festival, trazendo a Londrina importantes criadores da arte experimental. 

Em entrevista, Belli falou do espetáculo como a transposição para o palco de uma parte da obra de Alighieri, transformada numa poética de representação. “Faço uma abordagem da “Divina Comédia” de forma viva e sensível e não como um texto antigo, embora se trate de um clássico” – ressaltou, explicando que a escolha dos primeiros cantos do  “Inferno de Dante” deve-se às infinitas possibilidades dramatúrgicas oferecidas pela obra: “Não por acaso esta é a parte preferida pelos atores, por conter sínteses expressivas dos conflitos humanos.”

Entre os personagens interpretados por Belli, há aqueles que encerram enorme dramaticidade em ações e situações: “Como as pessoas cozidas pelo diabo que, enquanto vivas, agiram como corruptas ou traficantes de interesses” - cita, divertindo-se com a  possibilidade de que se esta “comédia” fosse escrita hoje, não faltariam personagens para inspirar o autor: “Os parlamentos estão cheios deles” - argumenta com ironia.

No espetáculo, entre outros personagens, aparecem Ulisses – herói da “Ilíada” e da “Odisséia, dois clássicos de Homero - como um representante do homem na busca pelo desconhecido, além do Conde Ugolino, encarcerado com filhos e netos numa torre e que, privado de alimento, é incitado a comer seus descendentes.
Todas estas figuras aparecem na montagem sob a tortura física ou psicológica que perturbam o homem em suas agruras máximas, o que corrobora com o clima terrível dos infernos particulares propostos por Dante.

Expressão máxima 

Matteo Belli busca a expressão máxima das emoções. Diz que elas significam  parte essencial do trabalho do ator, colocando a serviço da arte a potencialidade da voz e do corpo de forma ilimitada.
Entre suas influências, cita Grotowski, mestre do teatro contemporâneo, além de Eugenio Barba, diretor do grupo Odin Teatret, na Dinamarca, e um dos precursores do Teatro Antropológico. Reconhecendo nestes dois criadores a busca pela qualidade na concepção de suas obras, ele faz uma ressalva, afirmando que a percepção e o apuro técnico não bastam para o trabalho artístico: “É preciso levar em conta a emoção, sem ela, a técnica de nada vale.”

No seu trabalho, ele busca uma relação estreita com o espectador. “Mas sempre por meio da atuação, o que é diferente de procurar esta relação através de outros meios, como os bate-papos, após as sessões.”
Em síntese, seu “dialogo” com o público é feito de outro modo. “O ator deve entregar ao público tudo o que pode enriquecê-lo. O espectador é co-autor do espetáculo que nunca está pronto até o final da apresentação, quando cada pessoa da platéia faz uma leitura própria do que viu.”

Ele diz que sua relação com a obra de Dante Alighieri vem do interesse que tem pelos temas humanos, encontrados como sínteses em toda literatura do autor de “A Divina Comédia.  “O Inferno de Dante’ é sempre atual pela temática que aborda questões fundamentais, como a relação entre a vida e a morte”, afirma.

A proposta do espetáculo de Matteo Belli parece ser um mergulho profundo ao universo das sombras e dos conflitos humanos, colocando em xeque situações em que o confronto com a ética é levada a limites. “O que se pode dizer de um pai incitado a comer os próprios filhos ou de um personagem que se mata por dívidas?”, questiona Belli, entre a perplexidade e o desencanto demasiadamente humanos de um ator que entende a arte como a própria vida.  Seu campo de ação é a palavra cênica, expressão que parte do texto para abrir-se em novos significados, num trabalho orgânico que busca a comunicação máxima com o público.

SERVIÇO
Espetáculo: “Inferno di Dante – Visita Guidata”
Atuação: Matteo Belli
Dia: 14 de junho
Horário: às 21 e 23 horas
Local: Teatro Vila Rica

Apoio: Instituto de Italiano de Cultura de São Paulo

Texto reproduzido nos sites www.filo.art.br e www.aplausobrasil.com.br



Escrito por célia musilli às 18h24
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Mérida Urquía encena "Mãe Coragem" fazendo cinco personagens (Foto: Milton Dória)

Atriz de primeira grandeza 

Quando ela entra em cena, bastam poucos minutos para o público perceber seu potencial de atriz. Fazer Mãe Coragem, de Brecht, já significa um grande papel. Fazer no mesmo espetáculo, Mãe Coragem, sua filha muda e mais cinco personagens é uma realização possível apenas para quem conhece a fundo a arte de interpretar. Este é o caso da atriz cubana Mérida Urquía, que trouxe “Madre Coraje” ao FILO em duas apresentações, nos dias 8 e 9.

Encenada como um monólogo, a montagem tem como maior trunfo a interpretação de Mérida, que utiliza corpo e voz de maneira impressionante. No mais, uma iluminação simples pontua o cenário despojado, composto por uma pequena carroça, um banco e poucos objetos. A presença da atriz é suficiente para confirmar ao público que ele está diante de um verdadeiro espetáculo, que se revela como uma metáfora sobre os valores humanos e a crueza da guerra. 

Ao interpretar vários papéis, Mérida se transforma e, junto com ela, transforma-se o tempo e o espaço, revelando-se aos olhos do espectador situações desdobráveis, compostas por uma única atriz à qual o público se rendeu com aplausos calorosos desde a estréia.  

Carreira

Mérida Urquía contou, em entrevista coletiva, que tem 20 anos de teatro. Começou a interpretar quando ainda era estudante de História da Arte na Universidade de Havana, em Cuba. Depois estudou na Escola Internacional de Teatro da América Latina e Caribe, dirigida pelo argentino Oswaldo Dragún, e também na lendária Casa de las Américas. Para completar, estudou com grandes criadores do século 20: como Jerzey Grotowski e Eugenio Barba, fundador da ISTA – Escola Internacional de Antropologia Teatral.

A estas experiências e outras - como o contato com o diretor brasileiro Antunes Filho - ela credita a formação que a coloca como uma atriz na acepção da palavra, o que significa “construir um discurso corporal e cênico, elevando o potencial físico e vocal dentro de um trabalho de extrema disciplina,” como define seu ofício.

Nos anos 80, ela já trabalhava em Cuba, de onde sairia, nos anos 90, para conhecer outras culturas, até fixar-se na Colômbia. Hoje ela se divide entre dois países. Em Cuba faz parte do Teatro A Cuestas, que fundou juntamente com o dramaturgo e diretor Ricardo Munhõz – que também a dirige em “Madre Coraje” – e na Colômbia integra o Ensamblaje Teatro. A experiência nestes grupos e vários outros trabalhos realizados com companhias diferentes, redundou num repertório que lhe trouxe reconhecimento e alguns prêmios importantes, como o recebido da Fundação Stanislavski, em 91, por seu trabalho de investigação teatral.

Personagens

Depois de “Madre Coraje”, montado em 1998, Mérida ainda foi escalada para fazer outros papéis de mulheres mais velhas e, divertindo-se com a “preferência” dos diretores, conta que interpretou Úrsula Iguarán, personagem do romance “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez, e a Abuela Desalmada de Cândida Eréndira, outra personagem do autor colombiano.

Em seu repertório consta ainda uma interpretação de Mefistofles, do “Fausto”, de Goethe, e a direção de “A Tempestade”, de Shakespeare, entre inúmeras outras funções e papéis no teatro, território que ela conhece como a palma da mão e no qual construiu a etapa mais importante de sua carreira.

Mestra na formação de atores e na arte de usar bem a voz em cena, Mérida ministra cursos pelo mundo afora, como a oficina “A Voz, Uma Sonoridade Viva”, que ela realiza no FILO.
Bem humorada, conta que na Colômbia ainda faz dublagens de personagens de desenhos animados e tem incursões no cinema, tendo interpretado a personagem central do filme “PVC One”, baseado em fatos reais e que traz a história de uma camponesa vítima de um atentado terrorista. O filme foi apresentado em Cannes em 2006.

Mas Madre Coraje, além de personagem marcante, tem para Mérida o valor de um desafio que ela empreendeu com o diretor Ricardo Munhõz: o de montar um monólogo compondo vários personagens. Hoje, passados treze anos da estréia do espetáculo, a atriz incorpora a personagem de tal modo que chega a afirmar: “Madre Coraje faz de mim o que quer”, dando à matriarca da peça de Brecht uma autonomia surpreendente, como se criadora e criatura formassem um amálgama.

Não por acaso, quando termina a encenação, o público se levanta automaticamente para aplaudir de pé uma atriz que se entrega ao papel de corpo e alma. No FILO, na primeira sessão, os aplausos entusiasmados perduraram por alguns minutos, extrapolando o tempo em que costumeiramente a platéia reverencia um artista. Naquele momento, materializava-se a magia do reconhecimento de uma grande intérprete pelo público, fato que se repete em vários teatros do mundo onde Mérida Urquía se apresenta com o talento de quem vibra e contagia o espectador. Arte possível a uma mestra do teatro.     

Mais informações sobre o festival no site www.filo.art.br   



Escrito por célia musilli às 13h08
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Cena de "Rainha(s)", com Georgette Fadel e Isabel Teixeira, que esteve em cartaz no FILO

Pausa, mas só aqui

Estou na cobertura do Festival Internacional de Londrina - FILO. Textos sobre os espetáculos estão no site www.filo.art.br

Segue uma entrevista com as atrizes Isabel Teixeira e Georgette Fadel sobre "Rainha(s)", apresentado no festival.

Atrizes de corpo e alma

Georgette Fadel e Isabel Teixeira falam dos seus papéis em “Rainha(s)”, comparando uma soberana amorosa e uma “workaholic”

Devotadas à sua arte, Georgette Fadel e Isabel Teixeira, protagonistas de “Rainha(s) - Duas Atrizes em Busca de um Coração”, passaram por um processo de trabalho tão exaustivo quanto criativo antes de estrear o espetáculo.

Em entrevista, elas falaram com a emoção peculiar a duas grandes atrizes sobre a construção das personagens Mary Stuart e Elizabeth I, duas soberanas ou, simplesmente, duas mulheres que duelam no palco, exigindo de cada uma delas um potencial quase simultâneo de drama e humor.

A idéia de encenar “Mary Stuart” foi de Isabel Teixeira. Ela leu uma tradução da peça do alemão Friedrich Schiller (1769-1805), feita por Manuel Bandeira, e encantou-se com o texto. Mas resolveu transformá-lo criando uma nova dramaturgia e surgiu “Rainha(s)”, que lhe daria em 2009 o Prêmio Shell/ SP de Melhor Atriz pelo desempenho como Mary Stuart.

No palco, sua parceria com Georgette Fadel resultou numa montagem que impressiona pelo brilho das interpretações, oferecendo uma visão da condição da mulher em três tempos: no século 16, quando viveram as duas rainhas, no século 17, quando a peça foi escrita por Schiller, e na atualidade.

Alternando passado e presente em vários momentos, Isabel diz que interpretar uma personagem histórica não significa um peso. Afirma que no processo de construção dramatúrgica encontrou no cotidiano muita inspiração, o que talvez justifique o fato de se apresentar soberana no papel de uma rainha do século 16, tanto quanto fica à vontade na pele de uma mulher do século 21.

“Minha relação com os textos épicos é dessacralizada, já encenei Shakespeare e, como vejo teatro em tudo, observo coisas que remetem à sua dramaturgia até mesmo quando estou num supermercado”, diz Isabel.

Da mesma forma, Georgette afirma que o processo de “devorar” um clássico como Schiller para criar um espetáculo contemporâneo, é uma espécie de antropofagia em que “se desrespeita um texto original para respeitá-lo de outra forma.”

A diretora Cibele Forjaz, que juntamente com as duas atrizes criou a dramaturgia de “Rainha(a)s”, afirma que esta desconstrução ou “devoração” da peça para a criação de uma nova obra só é possível quando se conhece profundamente o original.

Escolhas

Para fazer “Rainha(s)”, as três criadoras não só pesquisaram a obra de Schiller como o período histórico em que viveram Mary Stuart e Elizabeth I.  A  partir disso, começaram a fazer as improvisações de cada cena, sem que Cibele Forjaz definisse qual papel caberia a cada uma. Esta escolha, segundo elas, só seria feita há menos de dois meses da estreia, no ano passado.

Mas adiar tanto assim uma decisão não cria um risco para o espetáculo? As três afirmam que não e colocam “Rainha(s)” como fruto de um processo no qual as cenas foram trocadas e interpretadas pelas duas atrizes, em papéis opostos, muitas vezes.

E onde entra o desejo de cada atriz fazer esta ou aquela personagem? As  protagonistas de “Rainha(s)” afirmam que não tiveram problemas quanto às escolhas. Embora Georgette Fadel, de forma divertida, afirme que a inveja também existe no teatro e que ela, muitas vezes, quando vê uma personagem que gostaria de ter feito, cobice o papel, pensando: “Puxa, por que não fiz isto?” Mas esclarece, rindo da própria sinceridade:“Trata-se de uma inveja que só acontece no plano estético, nunca no plano pessoal.”

O se percebe é que existe entre as duas uma sintonia que extrapola o palco. Elas se estimulam e se empolgam a cada vez que falam do espetáculo, lembrando passagens, ensaios, referências, dúvidas.

Georgette Fadel classifica Elizabeth I como uma “rainha workaholic”, completamente devotada ao seu plano de poder, e a compara com a mulher contemporânea para quem a carreira é tudo ou quase tudo.

Isabel Teixeira fala amorosamente de sua Mary Stuart, prima de Elizabeth I, que morreu decapitada, porque também disputava o trono da Inglaterra, e que passou 20 anos presa numa torre enquanto seu destino era decidido. Ela diz que o papel a fez refletir sobre muitas coisas, sobretudo sobre o sentido da liberdade e o peso das responsabilidades que vão tirando nossos movimentos e limitando as ações no cotidiano.

O que se percebe é que a construção de duas personagens fortes, que duelam durante todo o tempo em cena, só foi possível através de muita reflexão e criatividade das atrizes dirigidas por Cibele Forjaz, reconhecida pela liberdade que propicia ao trabalho dos atores.

No caso deste espetáculo, o processo redundou em êxito junto ao público e à crítica. Acima de tudo, o que se vê no palco são duas mulheres absolutamente apaixonadas pelos seus papéis, o que também justifica o título “Rainha(s) – Duas Atrizes em Busca de um Coração”.



Escrito por célia musilli às 20h23
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Entre a Lua Crescente e a Lua Nova

Gosto de ler o blog da Zoe de Camaris. Ela mora em Curitiba e sempre "ouço" o que ela tem a dizer. A Zoe é interessante, uma bruxa forjada no Conhecimento e que emprega o ocultismo de forma muito suave e feminina. Diria que é uma mulher lunar, porque tem as solares, mais atiradas e objetivas. A Zoe não, é cheia das sutilezas e me identifico com a forma com que ela traça os perfis a partir de elementos mágicos, repletos de subjetividade, onde a gente se encaixa entre a perplexidade e a clareza de se identificar com  o que ela descreve.

 

Já faz um tempo que ela desenhou o perfil dos quatro tipos femininos, quatro arquétipos, a partir das Rainhas do baralho e seus naipes. De cara fui conferir a Rainha de Copas. Achava que ali encontraria minhas características mais definidas. Para minha surpresa, tb me identifiquei com a Rainha de Paus pelo seu modo de “ler” o mundo e reagir aos acontecimentos. Mas, entre outras coisas,  não me encaixo em seu gosto por esportes radicais - sou patife demais para isso - e na sua preferência por tecidos com peles de bichos. Sou uma mistura da Rainha de Copas e da Rainha de Paus, um tipo híbrido, como tantas formas da natureza. Deixo aqui o perfil destas mulheres e também o endereço do site da Zoe onde a gente se vê quase no...espelho.

 

www.zoedecamaris.blogspot.com/

 

 

Rainha de Paus

 

 

É a Dama do Fogo. Suas cores são o vermelho, o laranja, o branco. Gosta de pouco pano sobre o corpo, mas abusa de lenços e fitas. Tecidos que imitam a textura e a estampa de peles é com ela mesma. A forma física é ágil, provavelmente magra, e adora tomar sol. Tem preferência por esportes radicais Não dá muita atenção aos detalhes e miudezas, prefere adornos grandes e sente-se muito à vontade perto da natureza, mar e floresta. Seu cabelo é rebelde como uma chama. Ela o assume completamente, crespo, liso ou ondulado e gosta de mantê-los soltos. Sua espontaneidade seduz. Sente-se muito bem de cabelos avermelhados, castanho acobreados, tons dourados. Sua cozinha não existe sem pimenta e temperos condimentados. Tem a índole forte e é auto-suficiente. Sua libido é de alta voltagem, é uma mulher que respira fundo e vai em frente. Normalmente, não pensa antes de agir. E adora ocupar o centro das atenções. É muito divertida, mas quando está brava, cuidado! Explosões à vista: é uma mulher “bomba-relógio”. Extrovertida, fala o que lhe dá na telha e depois se arrepende. Ou não. Os maiores defeitos são a impaciência e o excesso de vaidade. Suas palavras-chaves são Inspiração e Criatividade. No amor, é apaixonadíssima e tem dificuldades em manter um relacionamento estável. Seu tipo psicológico é o Intuitivo. Seu temperamento, segundo a classificação de Hipócrates, é o Colérico. Seu castelo Elemental, o das Salamandras. Sua Deusa é Ártemis e seu Reino, o da Lua Nova.

 

Rainha de Copas

 

É a Dama da Água. Suas cores são os azuis e verdes delicados, os rosados, os tons pastéis. Seus trajes são clássicos e com um toque floral-romântico. É a encarnação da feminilidade, no sentido tradicional do termo. Seu corpo de formas mais arredondadas fica bem com rendas, pérolas, túnicas e sedas. Gosta de formas curvas nos cintos e bijuterias. Prefere manter a brancura da pele e abusa de chapéus e lenços durante o dia. Quando vem a lua, ela resplandece, brilha no escuro. Aprecia jardins, riachos, quedas d'água, noites estreladas. Seus cabelos macios, sejam claros ou escuros, caem como uma cascata estejam presos ou soltos. Seu temperamento é suave. Sua índole, amorosa, sonhadora, nostálgica, idealista, utópica. Seduz pelo mistério. Os maiores defeitos são a indecisão e a falta de confiança. Sua palavra-chave é Harmonia. Introvertida, é a mais chorona das Rainhas e mal dignificada faz com que a mulher, não raro, sofra de autocomiseração, seja dada a chantagens emocionais e sofra com medos infundados. Gosta muito de crianças e da idéia de ter filhos, mas no amor prioriza o carinho e o romance. Mesmo casada é uma eterna namorada. Seu tipo psicológico é o Sentimento. Seu temperamento é Fleumático. Seu castelo, das Ondinas. Sua Deusa é Afrodite e seu Reino é o da Lua Crescente.



Escrito por célia musilli às 14h29
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Quando a poesia voa 

 

 

 

 

Existem coisas que chegam como um presente. Hoje recebi um destes, inesperado, quando o Leo Scartezzine me disse que havia postado um dos meus poemas no seu blog  -  http://www.bloguesuiteblog1.blogspot.com 

Ele disse que aguardava minha autorização para que pudesse liberá-lo para download em mp3. Autorizei.

 

Gosto quando os poemas saem voando por aí, criando asas que a gente nem imagina para eles quando os escreve. Horas depois fui conferir a leitura que o Leo fez de Suíte e achei maravilhosa, com música delicada e um jeito apropriado de dizer as coisas. Gostei muito, Leo. Namastê! 

Celia Musilli.mp3

 

SUÍTE

 

havia o desenho dos corpos e o desenho das pontes

um sobre o outro

silhuetas queimando na tarde incipiente

estivemos lá

num quarto abafado

sob um céu comovente

na hora em que os anjos

realizam o milagre da carne, sem pecado 

 

minha boca movia-se num beijo

deixava-me ficar assim

com a língua em ondulações de serpente

carícias sobre a nudez

reentrâncias delicadas

a flor da minha pele no Saara

o calor da vida era quase insuportável

 

 

à memória desta cena

acendo candelabros de lembrança luminosa

nada escapa aos meus sentidos

muito tempo depois

quando o amor é vago

um quasar distante

você ainda me visita

com a natureza das chamas

 

elas fingem que se apagam

e propagam faíscas

começando outra vez o crepitar do fogo

corpo sobre o corpo

miragem com que me iludo no sótão

procurando fósforos

a cada dia que nasce

nas paisagens nômades



Escrito por célia musilli às 23h12
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Happy birthday

 

 

 

 

Hoje é meu aniversário. Na expectativa de encontrar um gênio da lâmpada, deixo aqui os meus pedidos: um looooongo abraço do Guga e do Fernão, uma viagem sem fim, um amor de cinema, todos os poemas do mundo, uma chuva de estrelas, um jardim, uma pedra rara, um pedaço da lua, uma tela de Gauguin, o blues de B.B. King, o jazz de Gato Barbieri, abraçar um tigre, encontrar Khalil Gibran, beber vinho com ele, acreditar que a vida é um sonho que a gente inventa e que os gênios existem, os anjos existem e todos os desejos se completam.

 

Logo mais à noite, comemoro meu aniversário num sarau de prosa e poesia no espaço cultural Cemitério de Automóveis. Pura coincidência, o sarau e o meu aniversário.As datas se encontraram, os amigos gostaram da ideia e estão todos convidados. A poeta Samantha Abreu vai estar com a gente. Deixo aqui uma amostra da celebração, com motivos de sobra para acreditar nos gênios, nas lâmpadas e nos encontros luminosos...

 

 



Escrito por célia musilli às 09h51
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Foto:Walter Ney

 

Uma cidade sob a neblina

Hoje Londrina amanheceu com fog. Alguns dizem que isto acontece porque ela é filha de Londres. Uma filha distante, meio bastarda.

Na verdade, Londrina foi colonizada por ingleses, japoneses, árabes, paulistas, mineiros, baianos. Um caldeirão cultural que fez dela uma mulher versátil e muito atrevida. Que outra cidade teve Arrigo Barnabé, que depois foi parar na vanguarda paulistana? Clara Crocodilo sumiu?

Que outra cidade teve Itamar Assumpção andando em suas ruas quando adolescente? Que outra cidade tem Mário Bortolotto, que sempre dá as caras por aqui, para beber bourbon e falar de blues?

 

Hoje Londrina amanheceu com fog. Na avenida que atravessa meu bairro, os motoristas, às 6h30, não enxergavam um palmo diante do nariz. Dirigiam pra lá e pra cá, como teleguiados. De vez em quando uma gaivota, destas que dormem no lago, levantava voo e, no meio da névoa, seu movimento era um papel nas alturas.

Osana nas alturas!

Eu vi as gaivotas? Não vi? Elas existem?

 

Londrina amanheceu como uma pintura.

Mais um pouco e um capitão pirata chegaria de barco. Porque os ingleses eram todos piratas e hoje são fantasmas. Colonizaram a terra, levaram a madeira e nunca mais se viu qualquer sombra deles por aqui.

Os ingleses vieram? Não vieram? Eles existiram?

 

O fog de Londrina é a dúvida. Cenas que desaparecem na neblina. Nos dias frios, os fantasmas vêm às 6h30 da manhã. Até que o sol nasce, dissipando a umidade. Então concluímos que Londrina não tem fog. Tem uma cerração tropical, destas que me fazem bater com a cabeça na vidraça. Porque dá um medo danado de ter acordado no paraíso.



Escrito por célia musilli às 15h58
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De volta ao mar

Ela era feita de água e sal. E aquele mar nem sempre era triste, era apenas o mar inscrito no corpo, ondas que transbordavam para invadir a terra. Havia ilhas de ternura e ilhas de derrota, conchas secretas e peixes inquietos que pulavam para fora da linha d’água.

Assim marítima, ela às vezes se deitava sobre ele e o lambia, usando as palmas das mãos como ondas que convergiam para as linhas equatoriais. As linhas nasciam e sumiam antes dos dedos, longos e acabando em unhas perfeitas. Então, o que mesmo ela tocava? As suas mãos ou as dele? No movimento, elas se confundiam como conchas e lá dentro, no vácuo das palmas, o barulho parecia canto de sereia. Então, ela pegava uma das conchas e colocava o mar sobre seu ouvido.

 

Como um gato que massageia as patas sobre as almofadas, num gesto contínuo ela deslizava mãos e braços em ternuras longilíneas. Percorria o corpo dele de norte a sul, de leste a oeste. Em todo trajeto pequenas veias corriam como rios vermelhos até o coração descompassado. Descobriam assim as rotas da  própria pele, da musculatura, do prazer sob a sola dos pés...

 

O corpo dele era um continente estendido sobre a cama, uma viagem em que se encontram pequenos portos. Sobre os olhos, de cílios espessos, os sonhos escondiam-se da luz e tremiam levemente a cada toque, porque eram olhos intocados. Serviam para ver o mundo, mas estavam desacostumados a ficar assim fechados para os  movimentos desconhecidos que brotavam dos dedos dela. Pressões levíssimas, giros suaves os mantinham cerrados como persianas, com o olhar guardado para um quarto íntimo.

 

O que ele pensava, enquanto tensionava a garganta ou soltava um ai que poderia ser de prazer ou de angústia? Todos os sentimentos são possíveis quando despertados por toques da longa noite dos silêncios. Óleos mágicos gotejavam feito água, pingos de ouro escorriam dos vidros como paisagens de aromas. Haveria por ali um campo de lavanda?  

 

Nas viagens aromáticas a que ilhas chegariam seus pensamentos? Em que continentes desembarcariam? Sem saber o destino da aventura, ela o lambia outra vez como onda, depois se deitava bem quieta na areia. Seu corpo era quente como se o dia tivesse mil sóis e as horas concentrassem a luz. Então, era ele quem se deitava sobre ela, não como um homem, mas como um oceano que se levanta e engole as ternuras. Era como se todas as dádivas reunidas os fizessem esquecer que há desertos no planeta...



Escrito por célia musilli às 01h09
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