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Ah! o mês de maio

 

Maio chega com o friozinho prometido, um céu de lã, de carneirinhos voláteis me espiando entre as flores de algumas árvores que explodem roxas e rosas, num fundo decorado como paisagem em que Deus pôs a mão.

 



Escrito por célia musilli às 07h58
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Entre os perdidos, alguns... achados

 

Videopoema da amiga Nina Rizzi, com Anna Karina e os encantos da nouvelle vague...

http://ninaarizzi.blogspot.com.br/2012/03/nouvelle-vague-kammerspiel-montagem.html



Escrito por célia musilli às 01h52
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Um conto colado

Ana tem um amante com quem mantém longas conversas por torpedo. A escrita se materializa na telinha e quando a mensagem chega, o toque é um fetiche. Um dia, peguei o celular de Ana, juntei as pedrinhas e surgiu um mosaico. Nem um dramaturgo seria capaz de peça tão breve. As falas são deles, a colagem é minha.

Ana: “Dá vontade de desaparecer para aquele território do nunca mais. Nunca entendi sua quase perversidade em me deixar à deriva em coisas simples...

Antônio: Hoje o dia amanheceu como se ontem não passasse de ontem...Que bom! Vamos ao hoje com uma gota de esperança dum amanhã.

 

Ana: Quero te pedir para nunca alimentar meu “desespero”. Diga “não sei”, é mais confortável. Eu sei que sou frágil na minha loucura.

Antônio: bjbjbjbjbjbjbjbj bjbjbjbjbjbjbjbj bjbjbjbjbjbjbjbj

 

Ana: Quando chove/abro minha caixa de palavras/ madeira leve/ incenso desprendendo aroma/ a casa transformada em Roma/ e Dionísio não quer me amar/ ele não vê mais o meu vestido azul/ meu poema de viés tocando um blues/ Dionísio nem mesmo sabe/ que o amor se move/ só enquanto chove...

Antônio: A pele que habito é lâmina na alma.

 

Ana: Meu dilema é te encontrar ou não mais te encontrar. Há formas de manter o sonho na realidade e a realidade no sonho. Mas aí fico pensando, o que vamos fazer com todo aquele erotismo?

Antonio: Mas há encontro onde um empurra o outro e o leva em sua linha de fuga, numa desterritorialização conjugada (Deleuze) 

 

Ana: Você já viu a lua hoje?

Antônio: Hoje, na rua, uma menina no colo da mãe olhou e viu a lua com um brilho tímido. Imediatamente ela lançou os braços para o céu. Sua mãe disse: “tem coisas que a gente não pode alcançar, a lua é uma destas coisas.” Dito isso a menina chorou um choro que me cortou o coração.

 

Ana: Um ato de quase chegar perto/ quando me dizem/ “não toca aí é proibido” / mas musiquei com as cordas/ celebrei com as musas/ estive com os anjos/ aqueles tortos/ antes os inconfidentes/ que os mortos/ é tarde para evitar altura/ e não pegar desvãos/ eu era pássaro e já sabia/ coração

Antônio: Beijo alado do passarinhU!

 

Ana: Chegou aí uma foto e um verso de um vestido imaginário enrolado até a cintura? Tinha rosas no vestido...

Antônio: Ah! O seu vestido, é como encontrar um brinquedo, a brincadeira.O que importa tá no meio.

 

Ana: Você vem no sábado?

Antônio: “Dai-nos hoje a fome cotidiana.” (Bachelard). Amém!

 

Ana: Dai-me hoje o beijo cotidiano, amém!

Antônio: No sábado, Ulisses não poderá voltar à Ítaca.

 

Ana: Fico triste, Ulisses, na corda bamba, todos ficamos.

Antônio: Você sabe, nem em Ítaca temos garantias, ao passar algum tempo, Ulisses sempre deseja nova viagem.

 

Ana: B.........................................................J

Antônio: B....................................................J  



Escrito por célia musilli às 21h08
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De Maria para João

 

Preciso te encontrar agora, assim mesmo mexida, com a terra revolvida, os pilares tortos, um abalo sísmico de 7 graus na escala Richter para ver como se comportam nossas defesas diante da quase tragédia, do dramalhão de novela, da história de amor que tem seu enredo, tão feliz quanto patético. Uma briga assim não há de passar em branco. Retornei aos bilhetes, alguns mal escritos no ímpeto de salvar a pátria, a pátria de um amor que você nem chama de amor que é para ocultar o nome do que não pode ser dito em vão.

Amor nesta perspectiva deve ser um deus irado, destes que não perdoam, que pedem uma tranqüilidade responsável, quando somos todos irresponsáveis, à beira de um ataque de nervos, provando nossa humanidade. Nas cheias dos meus olhos, lágrimas  dançam um solo de piano, às vezes de sax pungente. Depois de superar o impulso de amaldiçoar memórias, coloco na xícara um pouco mais de açúcar e bebo o afeto destes dias atravessados. Engulo um ódio adoçante.

Às vezes, sou tão imediatista que devoro calendários, quero adivinhar o futuro, saber se há um porto depois dos naufrágios, um salva-vidas, uma esperança, um movimento leve como as borboletas, um local para repousar e deixar que o vento espalhe as dúvidas como grãos de areia, tão ínfimos quanto penetrantes.

Você faz de conta que não sente.  Desfila um olhar blasé como aquele seu jeans despojado, um toque de eterna juventude onde a maturidade faz vincos, eu te aliso, aliso e  te adivinho absorto em si mesmo, sempre ensimesmado pelas mesmas revoltas, doçuras e  danação de amor, aquele que não se entrega e põe no ar os pássaros da ilusão que me tiram do sério. Estaremos juntos de novo? Ou viramos para sempre a esquina e deixamos os ecos dos passos dos que perderam o paraíso?

 



Escrito por célia musilli às 11h28
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"Não sou mais a mesma pessoa. Quem me encontrar saberá que experimento as delícias da falta de recato, vou ao sétimo céu do meu corpo e me lanço às estrelas, com a cabeleira da Via Láctea solta no meu travesseiro, entre as sutilezas do meu sonho inacabado, com este ar blasé de quem levemente desacredita de tudo e - nos desfechos - não manda flores nem velas, apenas pega outra estrada como se esta odisseia nunca tivesse começado.

Não sou mais a mesma pessoa. Mulher é sempre um recomeço." 

(Fragmento de "Uma mulher de passagem", Célia Musilli in "Todas as Mulheres em Mim"/ 2010)

Foto: Ces’t moi



Escrito por célia musilli às 13h55
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Era pássaro

 

um ato de quase chegar perto

quando me dizem

"não toca aí, é proibido"

mas musiquei com as cordas

celebrei com as musas

estivei com os anjos

aqueles tortos

antes os inconfidentes

que os mortos

é tarde para evitar altura

e não pegar desvãos


eu era pássaro e já sabia

coração 



Escrito por célia musilli às 17h47
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Eva e a serpente (James White)

 

 

Censura: tem sido assim desde Eva

 

Nunca minha página no Facebook ficou tanto tempo bloqueada. Desde ontem, quando tento acessá-la, aparece o aviso: “Página temporariamente bloqueada por questão de segurança.” Interessante isso acontecer quando estou participando de uma manifestação pela livre expressão do nu na rede social. Acaso? Melhor consultar o horóscopo.

Fui bastante cuidadosa ao alertar os amigos sobre a estranha ocorrência, não saí disparando que era censura. A paranóia é tão perniciosa quanto o boicote. Mas também não me engano sobre o formato “wasp” do Facebook e suas regras moralizadoras. Foi esta mesma rede social que puniu e suspendeu pessoas por postarem em suas páginas a tela  “A Origem do Mundo”, de Gustave Courbet, que mostra de forma realista uma genitália feminina. Esta é apenas uma ocorrência, entre tantas. 

Meus posts  de divulgação do evento “Um dia no Facebook, só nus” nem chegaram a “tirar  a roupa.” Estava reservando o strip-tease para o dia da manifestação coletiva no FB: 12 de março, quando serão postadas coletivamente, em massa, imagens e textos sobre o nu.

Nos últimos dias, estava mais preocupada em fundamentar o discurso pelo nu, mostrando que existe censura quando se aborda o corpo como obra de arte ou de protesto, enfim, como instrumento de mudança. É isso que incomoda. Se postasse vídeos de adolescentes rebolando a “dança da garrafinha” ou um clipe do “ai, se eu te pego” do Michel Teló, nada aconteceria, corpo e sexualidade avacalhados são permitidos, o erotismo massificado não dói, tem por aí às pencas e não mexe com o establishment. Sinto-me nostálgica e imensamente moderna ao retomar um discurso quase anos 70 sobre o nu...porque percebo que o mundo não mudou. O que incomoda é dar “corpo” à nudez, dar ao assunto alguma consistência, iniciar debate, provocar reflexão.

Nossa manifestação no Facebook começou como uma proposta de livre expressão – tendo em vista os cerceamentos – e também como um questionamento que convida as pessoas a pensarem que lugar o corpo ocupa na contemporaneidade. Quais os olhares que podemos lançar sobre o nu? Porque a nudez é uma obra aberta, de sentidos múltiplos. Ainda hoje o nu é totem e...tabu.

Quando insisti em acessar minha página no Facebook, o recado do bloqueio desdobrou-se em outro aviso, vinha assim: “Conta bloqueada por questão de segurança”....”Seu computador está infectado por vírus.”  Quando acessei do computador do meu filho, o bloqueio se manteve, ou seja, todos os computadores que uso estariam infectados. Deve ser infecção por...palavras.

Só lamento precisar utilizar as redes sociais por uma questão profissional, é nelas que divulgo parte dos meus textos. Inevitável. Também lamento correr o risco de perder a página e os quase dois mil contatos que mantenho na minha lista. Estas são as perdas sentidas. No mais, trata-se apenas do sistema e de uma velha senhora chamada “censura” se remexendo nos túmulos. Não se enganem, ela não morreu...Mas vamos em frente, porque o mundo gira. Tem sido assim desde Eva.

 

P.S. Agradeço às pessoas que estão me apoiando e também àquelas que estão distraídas.

 



Escrito por célia musilli às 10h35
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A mais líquida das mulheres

 

Uma metáfora sobre a natureza feminina

 

Era tudo muito forte. Havia a confluência do Ganges e do Nilo, do Amazonas e do Yangtzé, o maior rio da China. Todos corriam para o mar. Àquela hora ela era a mais líquida das mulheres, aquela que verte o choro e ainda tem os líquens e os orvalhos. Esta natureza de água decerto era um risco num mundo sem muitas fontes, era um contraste. Tudo muito seco e inóspito, tudo ansiava por água que seria sorvida por uma sede de terra antiga, porque havia os desertos humanos.

Parecia não ter fim aquela sede do mundo e a mulher-água tinha muitos afluentes: ternura e graça, poesia e maciez na língua, oásis e plantas irrigadas. Mas assim que toda verve líquida desejava correr em fluxo contínuo, rochas obrigavam a água a estancar e a se repartir, perdendo força, transformando-se de novo em pequenos lagos isolados. A natureza seguia seu curso, às vezes contrariando a si mesma. Estancava quando queria puxar, até que, aqui e ali, uma nova reunião das águas se transformava numa cascata que arrebentava as emoções sutis. A ternura e a graça, a poesia e a maciez da língua, os oásis mais puros e as plantas irrigadas, tudo exposto à tempestade.

Quando chegava a este ponto, para não sucumbir à brutalidade, a mulher-água se recolhia e deixava-se levar pelo rio interior onde a emoção contínua transformava-se num pensamento quase ordenado. Havia palavras para colocar pingos nos is, gotas de chuva, moléculas no oceano. Vistas assim como moléculas que se juntam num determinado instante, as águas não eramtão assustadoras, porque a água, como se sabe, tem duas naturezas: uma de riacho doce, um convite de Oxum, outra de onda marítima de arrebentar diques, cidades e civilizações.

Quando a onda gigante se insinua sobre os portos, as embarcações batem seus cascos duros. Um atrito de arrebentação, impacto perigoso como as tempestades tropicais, produzidas por elementais que chamam ventos e os comandam por tempo indeterminado. Pode durar dias ou anos, nunca se sabe.

Na mitologia dos sentimentos há um balé exigente dançado na ponta dos pés, quando os excessos são recolhidos em garrafas, destas que se lançam ao mar para que se cumpram os acasos. Trata-se de um rito de passagem, ninguém sabe do quê para quê, mas há transformações. Algumas mensagens nunca chegam, batem nas rochas e se transformam em palavras de vidro moído, estilhaços que cortam deixando cicatrizes finas, quase imperceptíveis depois que secam ao sol.

Mas algumas mensagens chegam como códigos de sobrevivência que avançam pelos sete mares, contornam as ilhas, ludibriam a besta e seguem levadas pela casualidade até a praia mais mansa, onde toda angústia é espuma. Ninguém imagina que a espuma, que carrega algas e conchas, passou por perigos que têm a ver com o desejo do fluxo, quando as águas começam a formar ondas, redemoinhos, com a força centrípeta puxando e as possibilidades de flutuar parecendo impossíveis.

A mulher-água, com toda sua emoção, depois que corre junto ao Ganges e o Nilo, encontra a resistência das montanhas, se revolta, se reparte para seguir seu curso, cai em cascata, despenca no abismo, reúne outra vez os afluentes, ruma para o oceano, provoca as ondinas, dança o balé das ninfas, bebe o sangue das bestas, apazigua-se em espuma, quebra-se num remanso de praia onde se deita exausta.

Sua natureza é de onda e quando as rochas a recolhem para ficar ali, ela já partiu, fazendo o caminho de volta ao Ganges e ao Nilo para providenciar a semeadura dos sentimentos sobre a terra inóspita, os desertos humanos. Assim, apesar de todos os obstáculos, fertiliza para sempre e sempre o renascimento, líquido como a criação.


Texto do livro Todas as Mulheres em Mim/ 2010 - publicado na Folha de Londrina em 26/02) 




Escrito por célia musilli às 21h16
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Esta dor é minha...

A gente sabe que amadureceu quando fica triste mas em vez de só se queixar, agredir ou falar mal das pessoas, bate no peito, de forma humana, demasiadamente humana, e pensa: "Esta dor é minha..."



Escrito por célia musilli às 10h43
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Depósito de Tirinhas

 

 

Que pena!

Às vezes a gente demora bastante para entender que há pessoas absolutamente auto-centradas, cuja generosidade não dá a volta nem ao quarteirão, quem dirá ao mundo. Renegam amigos, vizinhos, amores. No fundo, conversam e trocam consigo mesmas.

Triste, muito triste saber que há quem coloque à disposição discursos riquíssimos e análises sofisticadas, ao mesmo tempo em que são tão pobres no trato das relações humanas, não sabendo compartilhar o que pregam. Um dos maiores golpes que senti ultimamente veio por estas águas, a da prática capenga, dissociada do discurso rico e, sobretudo, de  coisas a que dou imenso valor: a sinceridade, a ética e a delicadeza nas relações humanas. Assim contrói-se este mundo de cascas, feito só de embalagem e decepção quando a gente quer tocar mais fundo. Que pena! Que pena!

 



Escrito por célia musilli às 12h04
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às vezes meu poema é corpo

tem veias e pele

um rosto absorto...

às vezes meu poema é mente

memórias, mobílias

ideias, semente...



Escrito por célia musilli às 11h23
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Gosto de deixar arrumadas as "casas" que construí com as pessoas que amo, ainda que a gente não more mais nelas. É que tudo é tão breve, que tenho medo de ir embora e deixar uma bagunça nos meus sentimentos...



Escrito por célia musilli às 12h35
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Nômade

 

 

caminante, no hay camino, se hace camino al andar... (Antonio Machado, poeta sevilhano) 

Vou ao lugar nenhum, aquele em que os sentidos se dissolvem, sem história, sem fios. Vou para o silêncio que, no depois do depois, reinaugura a  fantasia que o real me roubou por insistência...

http://www.youtube.com/watch?v=cONGUQsTQaQ

 



Escrito por célia musilli às 16h45
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Ilustração: Marcos Jakobsen 


Um instante sobre a saudade


Só quando ganhamos noção do tempo, tomamos consciência do que significa 'nunca mais'

 

A saudade é um fio tecido nas horas, nos dias, nos anos, matéria fina e imprecisa do tempo. Pode acontecer assim que a porta se fecha ou muito anos depois, quando velhas fotografias escapam das gavetas com personagens que não estão mais aqui mas nunca saíram de nossas vidas. A saudade é um sopro da memória, imagem de crianças brincando, afetos se derretendo em ternuras, velhos ao redor do fogo.

Meu pensamento às vezes visita um longínquo jogo de bola, o formato de um bolo, a vergonha de usar um vestido de alças, o dedo que se prendeu na porta quando nossas dores eram apenas físicas. Só depois conhecemos as dores da alma, o contato com a  angústia quando deciframos o significado do que se sente e que não vem de nenhum corte que se cura com band-aid. 

Não me disseram que não haveria cura para o que fica sem resposta, para o impacto das notícias ruins, para as perdas que não se resgatam. Durante muito tempo , achava que tudo era reversível como se nenhuma sensação durasse mais do que o instante em que as coisas acontecem. Só quando ganhamos noção do tempo, tomamos consciência do que significa “nunca mais”, “adeus”, “ não se esqueça de mim”  e outras expressões que servem de sinal ou de consolo para coisas que não se repetem, como fotogramas que ficam para trás substituídos por outras imagens. 

A sucessão de acontecimentos em nossas vidas obedece a uma ordem imprecisa, estamos aqui hoje, podemos não estar amanhã, não há lógica no vácuo, nas ausências que acontecem de repente como um botão arrancado onde haveria flor, brisa e movimento.

Se hoje volto ao assunto das minhas sensações mais íntimas, não é por tristeza ou um acontecimento súbito. Nem sequer estou triste, apenas afio o meu olhar, a visão em 360 graus, recapitulando um mar de emoções, de cheias e refluxos, de felicidades e sustos, de tensões e relaxamentos, de surpresas e esperas. De fluxos.  A saudade neste instante é minha musa. O espelho retrovisor mostrando um disco na vitrola, uma sessão de cinema, um amigo fazendo música, um beijo trocado, um amor e sempre alguns rostos que se distinguem na multidão como se a mente fizesse um zoom.

O pensamento é o único mecanismo que nos faz voltar ao tempo mas nunca  às mesmas horas, aos mesmos dias, aos mesmos anos, porque a sucessão das coisas é a inexorável passagem  que nos leva adiante, deixando para trás aquilo que se perdeu. Por isso hoje, quando reviro os fotogramas da memória, considero que há um filme pela metade mas ainda sem desfecho, uma história que pode ser escrita enquanto houver tempo, tinta, sangue e  espaços em branco. E haveria muito mais a dizer, mas a rota circular do tempo não permite que se demore em fatos perdidos, páginas viradas, leite derramado sobre o tapete mágico da existência.

Alguma coisa me diz: Não se demore sobre o passado, sobre as perdas e ganhos. Apenas puxe o fio da memória como quem visita a sua casa interior, abrindo salas, quartos , varandas onde a mobília afetiva permanece com a imaterialidade própria do amor e das ternuras que dão origem à saudade. Este sentimento condensado numa língua única e que significa o “banzo” de cada um de nós, exilados do que vivemos como passageiros sem bilhete de volta.

 

(Crônica publicada na Folha de Londrina em 05/02/2012, com 19 compartilhamentos no Facebook, que matéria fina é a saudade)



Escrito por célia musilli às 01h03
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 Foto: Elena Kalis


LÍGIA

eu sou a lenda  da mulher inexistente

só me vê  quem me consente

na solidão do encantamento de Ulisses

pérola entre os corais  

bailarina em ponta nos cristais

esfinge verde dos cabelos lisos

 

canto confundindo as marés

sopro barcos ao vento do desconhecido

deixo pegadas na areia

envio cartas de sereia

onde nada permanece escrito...


(Do livro Sensível Desafio/ 2006/ Foto: Elena Kalis)



Escrito por célia musilli às 07h49
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