Meu Perfil
BRASIL, Sul, Mulher, de 36 a 45 anos, Portuguese, English, Arte e cultura, Informática e Internet



Histórico


Votação
 Dê uma nota para meu blog


Outros sites
 UOL - O melhor conteúdo
 BOL - E-mail grátis
 maria angélica
 márcio américo
 mário bortolotto
 chacal
 domingos pellegrini
 antonia pellegrino
 escritoras suicidas
 jornal do blog
 carlos
 xico sá
 ademir assunção (pinduca)
 guga
 meu antigo blog
 fernanda borges
 rubem alves
 sérgio ranalli
 marcos
 museu
 fernanda
 beto
 mara
 altair de oliveira
 amasmorra
 leo
 janaína
 marilena
 rafael
 alessandro
 Lili
 jorge again
 jr
 daniela
 cassio
 sheila
 roberto
 angel cabeza
 beto lins
 ana ramiro
 rubens pillegi sá
 cláudio
 maicknuclear
 fernando stratico
 fernando blues
 Ricardo
 márcia do valle
 Dia do Nada
 rodrigo garcia lopes
 ana peluso e mário
 Carina Paccola
 Djalma Santos
 Caixinha de Pandora
 liseu
 paulo briguet
 flavio2
 gabriel
 novidadeiras
 Ursula2
 outros poemas
 rosangela
 fabricio carpinejar
 ana luísa
 carlos II
 rubio medina
 Oficina do pensamento
 paola
 Lívia
 Yuri
 karen
 luiz aquino
 ana peluso2
 celina
 sônia marini
 juliana2
 duda bandit
 pedrita2
 maga2
 marília kubota
 moacy
 rafael2
 kity amaral
 Tim
 fernando blues2
 Bruka Lopes
 Amar
 Kity2
 Liliana - music
 márcio pimenta2
 Miller
 Roberto Queiroz2
 Luiz Valcazaras


 
sensivel desafio


Manhã

 

orvalho sobre a grama

vapores nus da poesia ao sol

e a aranha azul a consertar a trama



Escrito por célia musilli às 13h45
[] [envie esta mensagem] []



Sobre o inverno

O frio aumenta ao cubo meu desamparo. Com dedos congelados à revelia, não sei o que fazer quando as letras não obedecem... X vira C, W é Q. E este teclado que faz um barulho seco, como o clima de céu estrelado e inverno declarado que me deixam sem o ânimo do verão. Naquela estação sim, eu ouço as abelhas zunindo para fazer mel, douradas confidências que pingam dos enxames enlouquecidos, quando as rainhas batem na vidraça a teimosia antes do inevitável acasalamento. O amor é zoom e zumbido.

 

Mas vem o frio e nem os insetos aparecem por aqui.  Lagoas têm aparência de vidro, pássaros ficam em silêncio, o dia termina mais cedo e a noite é um assombro de temperaturas baixas e sonhos que se precipitam com as ventanias. Ando de mal do clima. Passageira dos dias breves e das noites longas onde não há insônia, mas um desconforto nos movimentos contidos, braços e pernas encolhidos, e um pensamento que se alonga na melancolia. Eu que nasci nas geadas ando sem o alento das fogueiras do espírito. Palavras se calam, inspiração não brota. A natureza de vidro me faz sentir como cereja em conserva, sem a explosão das flores e os perfumes da sua origem. Resta um gosto de licor derramado entre o céu da boca e a minha língua. A alegria pode ser tão antiga.  



Escrito por célia musilli às 19h55
[] [envie esta mensagem] []



'Sclavi", espetáculo do grupo Farm in the Cave: música e teatro de primeira qualidade 

Jam session encerra o FILO

Um acontecimento musical marca o último dia do FILO 2008. Os integrantes dos grupos Shinjyuku Ryozanpaku, do Japão; do Odin Teatret, da Dinamarca; e do Farm in the Cave, da República Tcheca, fazem uma ‘jam session’ hoje, no centro de Londrina. Com estilos bem distintos, mas com muita vontade de fazer experimentações musicais, os integrantes prometem surpreender o público que passar pelo local. O encontro  será às 17 horas, na Concha Acústica. Vale a pena conferir. Detalhe: tudo será improvisado. 



Escrito por célia musilli às 14h05
[] [envie esta mensagem] []



Eugenio Barba: expoente do Teatro Antropológico

 

Teatro do outro mundo

Eugenio Barba fala do espetáculo que o Odin Teatret, da Dinamarca, traz ao FILO, inspirado nos contos de fadas e no candomblé

 

A volta do Odin Teatret ao FILO representa uma reverência do festival à sua própria história. Afinal, desde os anos 80, a companhia dirigida por Eugenio Barba tem ligações com Londrina e com o Brasil, onde realizou uma pesquisa cultural.
Em 1991, o grupo trouxe ao FILO uma mostra de espetáculos e, em 1994, Barba faria em Londrina a única sessão da ISTA – Escola Internacional de Teatro Antropológico - realizada na América Latina. Todos estes acontecimentos fundem-se com a  história do FILO que, na sua essência, guarda relações fecundas com o teatro antropológico do Odin.

Nesta edição, Barba está de volta com todo o elenco do grupo – composto por 14 atores, 13 veteranos do Odin e um  brasileiro, Augusto Omulú, baiano de Salvador, que hoje vive entre a Itália e a Dinamarca. Eles apresentam “Andersen’s Dream”, baseado nos diários do escritor dinamarquês Hans Christian Andersen (1805 - 1875) que relatam o estranho sonho, em que ele era convidado por um rei a viajar em seu navio. Mas, quando ele chega ao porto, o navio já havia partido e, chamado para viajar em outro barco, ele acaba aprisionado, passando a fazer parte de uma carga de escravos.

Na quarta-feira, como um viajante que volta do mundo dos sonhos, Eugenio Barba retornou a Londrina. Um pouco mais velho e com a mesma força criativa que fez dele um dos principais encenadores do teatro contemporâneo, ele conversou com a  imprensa. Na entrevista, além de abordar o espetáculo, falou de si mesmo e acabou dando lições maduras sobre o teatro e a própria vida.

O sonho de Barba que resultou em “Andersen’s Dream” teve início há  uns cinco anos, quando a companhia procurava o tema para um novo espetáculo. Barba recordou: “Em 2003, a Unesco tinha decidido que aquele seria o Ano da Luta dos Escravos e começamos a pesquisar o assunto. Me ocorreu que a escravidão traz sempre uma dualidade: de um lado a infâmia, de outro a vitalidade que uma cultura, incorporada a outra, sempre provoca. O Odin já havia pesquisado a cultura asiática e também os povos da América Latina. Pensei que havia chegado a hora de pesquisar a África e percebi que por onde passaram os escravos negros, formou-se sempre uma grande cultura, com estímulos criativos poderosos.”

Esta primeira idéia viria  a fundir-se com outra, quando Barba e o Odin souberam que a Dinamarca preparava, em 2005, uma grande homenagem aos 200 anos de nascimento de Hans Christian Andersen, escritor emblemático, autor de contos de fadas e que viveu, por causa de sua origem pobre, facetas da escravidão.

“Seu pai era sapateiro – diz Barba – a mãe lavadeira e prostituta, porque a prostituição, naquela época de extrema pobreza na Europa, era condição corriqueira. Andersen, ainda adolescente, foi para Copenhage, inculto e cheio de medos. Queria ser artista. Conseguiu a proteção de um diretor da Ópera Real, chancela sob a qual poderia estudar. Mas como cantor era medíocre e, aos 15 anos, sua voz começou a mudar, o que resultou numa catástrofe para as suas pretensões artísticas. Com muito custo, conseguiu ir para a escola aos 17 anos, humilhado porque era o mais velho da classe, que contava com crianças de 7 ou 8 anos. Sua vocação literária só iria se revelar mais tarde quando ele começou a escrever um diário, marcado por lutas que o aproximavam de uma espécie de escravidão, determinada pela falta de recursos.”

A partir destas informações, a idéia de abordar num espetáculo do Odin o tema da escravidão foi entrando por outros caminhos, até tomar forma através de uma sucessão de acontecimentos nos quais Barba  enxerga uma estranha lógica. Assim, a luta dos escravos e a luta de Andersen pela sobrevivência se fundiram numa montagem que traz atores falando vários idiomas e uma forte influência afro, com incursões, inclusive, pelo candomblé.

Andersen é um autor de contos de fadas. Por isso, Barba explica que o espetáculo que está no FILO tem uma concepção fantástica que resultou numa sofisticada produção, com cenário de 11 toneladas, que foge aos conceitos de simplicidade do teatro antropológico, do qual o Odin é o principal expoente.

“Levei tempo para resolver a relação do espaço cênico de ‘Andersen’s Dream’ com o trabalho dos atores”- disse Barba. E complementou: “Investimos num cenário concebido pelo arquiteto Lucca Ruzza, que custou muito dinheiro, mas enquanto eu trabalhava, pensava: ‘Este pode ser meu último espetáculo, vou contrair as dívidas e, se for o caso, deixo tudo para meus filhos pagarem” – brincou.

O investimento criativo também foi grande. A dramaturgia  traz personagens que fogem ao senso comum e não respeitam as regras do cotidiano. “Trabalhamos sobre a idéia dos contos de fadas – explicou Barba – uma realidade que não pode ser aprisionada, que não tem lógica humana, mas tem animais que falam, por exemplo. Enfim, uma confusão que demandava a criação de um mundo múltiplo, por isso, o cenário conta muitos espelhos, trazendo referências de um universo literalmente fabuloso.”

Barba falou na entrevista sobre outros elementos da montagem: barcos à vela, objetos que flutuam, dramaturgia sonora que conta com a apresentação ao vivo dos músicos do Odin. Em resumo, uma colagem de situações e imagens que o levam a definir Andersen’s Dream como “um claro enigma”. 

A definição parece incorporar-se perfeitamente ao conceito da própria companhia que, há 44 anos, encanta platéias com uma surpreendente originalidade. Este processo criativo é dividido em etapas. “A cada quatro, cinco anos, o Odin monta um novo espetáculo, apresentado na Dinamarca e em vários países do mundo” – diz Barba que já foi marinheiro e, hoje, ainda parece viajar de porto em porto levando na bagagem uma nova maravilha.
Desta vez, como um velho mago, ele volta a Londrina para celebrar os 40 anos do FILO e traz contos de fadas, com todo o encantamento de um gênero que, assim como seu teatro, nem parece coisa deste mundo.

Além de tudo, traz cartas na manga para o futuro e adiantou que o próximo espetáculo do Odin será baseado na obra poética de Paulo Leminsk. Mas esta é uma outra história, possivelmente também fabulosa.

Leia mais sobre o festival www.filo.art.br



Escrito por célia musilli às 14h52
[] [envie esta mensagem] []



Roberto Bacci: diretor de 'Amleto", que integra a programação do FILO 

 

Uma ponte entre o Brasil e a Itália 

Roberto Bacci, diretor da Compagnia Laboratorio di Pontedera, fala do teatro na atualidade 

 

Roberto Bacci, diretor da Compagnia Laboratorio di Pontedera, da Itália, volta ao FILO depois de mais de 20 anos. A primeira vez foi nos anos 80, período em que o festival consolidava seu prestígio de evento internacional, recebendo importantes grupos teatrais da Europa e de outros continentes.

Ele diz que voltar à cidade, nesta edição comemorativa dos 40 anos do FILO para apresentar “Amleto” é uma circunstância feliz  e acha incrível que Londrina, com pouco mais de 70 anos, tenha um festival de teatro com mais da metade deste tempo.

Segundo ele, na Itália isto seria impossível. “Primeiro – brinca – porque as cidades são muito antigas. Depois, porque o movimento teatral,  que nos anos 70 e 80 era intenso, recrudesceu.”  Sobre isso, ele argumenta que as novas gerações, que tomaram a frente dos movimentos, não o fazem com a mesma força e também não conseguem criar alternativas com a mesma organização de antes.


Mesmo assim, ele diz, a Itália tem muitos grupos teatrais e o número de espectadores de teatro às vezes supera o do futebol. O que não deixa de ser uma proeza, embora o público mais volumoso prefira as linhas tradicionais às novas linguagens.

Sobre a situação dos jovens atores em seu país, ele revela que, hoje, as companhias não têm a preocupação de formar profissionais autônomos. “O trabalho deles fica preso à identidade das companhias que usam atores pela presença física, pelo corpo e , quando eles saem do grupo, não sabem o que fazer para serem atores de fato“,  critica.

Para Bacci, o ator é a matéria-prima do teatro, mas ele confessa que é terrível admitir que os realmente bons são uma raridade.

Amigo e parceiro de trabalho de Cacá Carvalho, que dirige em São Paulo a Casa Laboratório Para as Artes Teatrais –  que mantém vínculos com Fondazione Pontedera para a realização de espetáculos, cursos de formação e outras atividades - Bacci elogia o ator e diretor brasileiro.  “Se o Cacá morasse no Japão, seria considerado um patrimônio cultural, porque lá existe esta consideração pelo grande artista, tido como um tesouro, uma riqueza nacional.”

A ligação de Bacci com Cacá de Carvalho vem dos anos 80, quando o diretor italiano dirigiu o ator brasileiro no monólogo “O Homem com Flor na Boca”, de Pirandello, que se tornou um sucesso de crítica e público.
Mais tarde, viria a montagem, também em parceria, de “A Poltrona Escura”, outro sucesso de Cacá Carvalho, premiado pela APCA (Associação Paulista de Críticos) como Melhor Ator, em 2003.

O intercâmbio entre os dois artistas já rendeu também encontros e conferências, além da Fundação ter levado a São Paulo, em 96, o lendário encenador e teórico polonês Jerzy Grotowski (1933 - 1999).

Por outro lado, Cacá Carvalho também acaba de retornar da Europa onde apresentou o espetáculo “O Homem Provisório” - dirigido por ele e baseado em "Grande Sertão, Veredas", de Guimarães Rosa - produzido pela Casa Laboratório Para as Artes de Teatro em parceria com a Fondazione Pontedera de Teatro. O espetáculo foi mostrado na Itália e na Alemanha e Cacá diz que o público europeu compreendeu perfeitamente a linguagem do grupo.

Com intercâmbios cada vez mais intensos, o sonho de construir uma ponte teatral entre o Brasil e a Itália já é uma realidade, consagrando a visão da cultura em movimento e o ideal de uma arte sem fronteiras.



Escrito por célia musilli às 12h18
[] [envie esta mensagem] []



 "Amleto": uma pintura em cena

 

Shakespeare em italiano 

A Compagnia Laboratorio di Pontedera, da Itália, traz ao festival de Londrina uma versão de "Hamlet"   

‘Hamlet” é um personagem que atravessa o tempo e já se perdeu a conta de quantas vezes ganhou vida no palco. Não bastasse, algumas frases, da peça dramática escrita por Shakespeare, ecoam como verdades que permanecem intactas e, de vez em quando, irrompem como um fantasma: "Há mais mistérios no céu e na terra, do que sonha a vã filosofia."

Hamlet voltou à cena no FILO como “Amleto”, versão impecável que a Compagnia Laboratorio di Pontedera (Itália),dirigida por Roberto Bacci, trouxe a Londrina e tem sua última apresentação hoje, na Usina Cultural, às 21 horas.

A tragédia, como se sabe, é a história de um príncipe da Dinamarca empenhado em vingar-se da morte do pai, assassinado pelo tio que depois ocupa o trono, casando-se com a mãe de Amleto.

Na versão do Pontedera, seis duelistas, a golpes de astúcia e floretes, acordam o passado e com ele o príncipe Amleto que deverá reviver sua própria história, confrontando-se de novo com o seu destino e os personagens que marcaram sua vida.

Em entrevista, o diretor falou do espetáculo, puxando algumas meadas da sua versão para a história que figura no teatro como um pungente drama. Bacci disse que “Amleto” parte do princípio de que cada um de nós age movimentado por forças do destino, por leis que desconhecemos e das quais somos inconscientes. “Estas forças agem sobre nós do início ao fim da existência e podem ter vários nomes: lei da gravidade, sociedade, moral, família. Tudo nos move na direção do fim. Amleto é o drama da escolha e da responsabilidade. Seu princípio é encarnado por seis duelistas anônimos que representam as forças que o empurram ao seu destino e que se multiplicam, tomando a forma de personagens.”

Em cena, como duelistas ou forças anônimas que usam máscaras,estes personagens são os mesmos que atravessaram a existência de Amleto, moldando seu destino de forma irreversível. Na versão do Pontedera, eles se reproduzem de forma criativa. Há dois reis e duas Ofélias, por exemplo, como num jogo de espelhos, com forças sobrepostas fechando-se como uma armadilha sobre Amleto.

Cenário sóbrio – no qual uma estrutura móvel acolhe os atores,  transformando-se em vários ambientes - iluminação tênue, corpos e sombras que se movimentam com uma precisão que hipnotiza a platéia, tudo em “Amleto” se converte magicamente num corredor do tempo, que se movimenta para trás e para a frente, entre o passado e o futuro. 

“Hamlet” é um drama conhecido. Na versão do Pontedera o que surpreende e aflige é a condição do personagem, que já conhece seu destino, reviver sua história, deparando-se com as mesmas situações intransponíveis, as vidas que se consomem no fio das lâminas e nas doses de veneno, até seu próprio fim.

Segundo Bacci, a idéia é que Amleto reviva sua história, com ausência total de liberdade de escolha, levado pela mão de um destino trágico contra o qual nada pode. “Resta o silêncio”, como no texto de Shakespeare.

Leia mais sobre o festival em www.filo.art.br



Escrito por célia musilli às 18h30
[] [envie esta mensagem] []



Peter Brook: um ícone do teatro contemporâneo

 

A simplicidade de um mestre

 

“Hoje eu sei que aquilo que é puro e simples toca o espectador. É nisto que estou interessado. E o teatro de Beckett, para mim, é exatamente assim.”

A frase, do diretor inglês Peter Brook, reflete o pensamento de um homem que se dedica ao teatro há mais de meio século. Dita assim, parece surpreendente que corresponda ao pensamento de um mito, um destes nomes célebres da cultura que exige sentidos apurados de quem queira debruçar-se sobre sua obra em busca de respostas para uma pergunta inevitável: ‘Afinal, o que ele tem a dizer sobre o teatro?”

"Fragments", espetáculo dirigido por Peter Brook, com textos de Samuel Beckett, é destaque na programação do FILO 2008.  Em Londrina, ele fica em cartaz nos dias 15, 16 e 17, depois segue em turnê nacional que passa por  Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo.
Brook não veio ao Brasil com o grupo do C.I.C.T. – Centro Internacional de Criação Teatral – Théatre de Bouffes du Nord (França). Quem acompanha a turnê é Maria Hélène Estienne, assistente de todas as peças da companhia desde 1977.

É bem provável que quando o grupo dirigido por Peter Brook estiver no palco, suas palavras sobre a simplicidade  se revelem de forma mais clara através de conceitos de encenação, tidos como um dos pilares do teatro contemporâneo, que percorreram um longo caminho até chegar ao despojamento do que ele chama de “palco nu.”  Sobre isso, ele fala no livro “O Teatro e o Espaço”: “Posso tomar qualquer espaço vazio e chamá-lo de palco nu. Um homem caminha sobre ele, enquanto outra pessoa o assiste, e isto é tudo o que preciso para um ato teatral acontecer.”

Construído sobre quatro pequenas peças e um poema de Beckett - outro mito do teatro – "Fragments" traz personagens em situações inusitadas, permeados por um humanismo que toca o espectador e representa, afinal, a busca de Brook.

Em entrevista à assessoria de imprensa do FILO, por telefone, ele disse: “Todo teatro fala do conflito que se estabelece quando a vida interior do ser humano passa a se manifestar na vida exterior. Esse mundo escondido é muito maior que o mundo aparente.”

Estas palavras parecem ‘vestir’ sob medida os fragmentos cênicos do espetáculo: as quatro pequenas peças e um poema de Beckett que levam ao palco as experiências inusitadas de uma galeria de personagens que despertam algumas contradições. As peças são: "Rough for Theatre I"; "Rockaby"; "Act Whitout Words II" e "Come and Go". O poema é "Neither."

Em uma hora de espetáculo, cada fragmento traz personagens construídos detalhadamente por  três atores: a inglesa Hayley Carmichael, o israelense Khalifa Natour e o italiano Marcello Magni.

É no trabalho exaustivo dos atores que se baseia o teatro de Brook. A interpretação perfeita é matéria-prima do diretor que criou a expressão “palco nu” para traduzir sua busca por um teatro sem pirotecnias, cenários suntuosos, cenografia exagerada. Tudo é simples e deve revelar tão somente a humanidade de cada gesto, cada movimento, cada expressão dos atores que compactuam com Brook a busca pelo teatro trespassado, em última instância, pela vida.

A intenção de Brook nesta montagem, segundo suas próprias palavras, é renovar o olhar sobre a obra de Samuel Beckett, autor lembrado pelos temas conflituosos de suas peças e que também foi chamado de “o mestre do vazio”, um conceito que encontra num de seus textos mais famosos - "Esperando Godot" – o ambiente ideal, já que nele duas pessoas estão à espera de outra que nunca chega. Assim, ‘o palco nu” de Brook parece encontrar no “vazio” de Beckett uma ressonância que, no fim de contas, diz muito.

Mas a renovação do olhar sobre Beckett, proposta por Brook, é a de revelar o humor contido nos textos do dramaturgo. “Todo ser humano, olhando de fora, é engraçado” – disse o diretor inglês sobre "Fragments". Assim, cada quadro do espetáculo traz uma leveza surpreendente, mesmo quando a trama revela carências e conflitos. 

"Rough of Theatre I" abre o espetáculo com o encontro de dois miseráveis: um é cego, o outro inválido. Um é infeliz o suficiente para querer cometer suicídio. O outro considera um luxo o simples fato de ter feijão no prato. Ainda que os personagens representem uma situação trágica, a possibilidade de extrair humor do conflito é evidente.

"Rockaby" é mais denso e sombrio. Mostra uma personagem no movimento ininterrupto de uma cadeira de balanço, como se desperdiçasse a vida. Mas se no texto de Beckett , a personagem fica sem se mexer, ouvindo sua própria voz em off, na versão de Brook , a protagonista ganha mobilidade e fala.

"Act Whitout Words II" tem humor mais livre, construído à base de pantomima e linguagem clown.  No palco, dois personagens remexem o lixo, numa sucessão de ações que se repetem, sem nenhum sentido.

"Neither", o poema de Beckett cravado no meio do espetáculo, retoma a melancolia e o clima sombrio, interpretado por Hayley Carmichael.

"Come and Go" retoma o humor através de três mulheres, duas delas representadas por homens, remetendo a uma crítica divertida da sociedade. Esta peça final tem como tema a fofoca e os julgamentos que todos fazem de tudo.

Ao fazer uma releitura de obra de Beckett, propondo mais leveza e humor, Brook refaz o caminho que marcou sua trajetória, ao lançar sempre um olhar diferenciado sobre a obra de dramaturgos consagrados. Afinal, ele encenou "Hamlet", de Shakespeare, cortando 40% da peça do autor considerado um símbolo da dramaturgia ocidental. Não bastasse tal “heresia”, ainda  escalou um ator negro para o papel principal. Portanto, não há o que se estranhar quando se trata de Peter Brook, um criador que, não por acaso, tornou-se um símbolo do teatro.

Sobre "Fragments", ele recomendou, por telefone, à imprensa: “Vocês prestariam uma grande ajuda dizendo ao público que o meu trabalho, inevitavelmente, vem se tornando cada vez mais simples. Se as pessoas vierem esperando ver os mesmos velhos espetáculos de 30 anos atrás, pensando que verão fogos de artifício, irão se decepcionar. Seria de grande ajuda se dissessem ao público que não espere ver pirotecnias teatrais. Estes dias acabaram.”

 

Leia mais sobre Peter Brook e 'Fragments" em www.filo.art.br



Escrito por célia musilli às 08h18
[] [envie esta mensagem] []



'O incrível é tornar-se invisível, da mesma forma que um dia fomos amados."

Frase da peça 'O Invisível', de Samir Yasbeck

 



Escrito por célia musilli às 13h12
[] [envie esta mensagem] []



La Fin des Terres: referências à pintura de Magritte

 

Pintura em movimento

A  companhia francesa Philippe Genty já conquistou platéias em todo o mundo. Conhecido por suas montagens criativas, que mesclam teatro, dança, bonecos e artes plásticas, o grupo está em Londrina para participar do FILO, e apresentar ‘La Fin des Terres’ no Teatro Ouro Verde , nos dias 12, 13 e 14, às 20h30.

A montagem é essencialmente visual e algumas de suas imagens foram inspiradas em sonhos, acontecimentos da infância e até traumas de Philippe Genty, diretor da companhia. As cenas articulam-se através de um fio condutor e há uma história permeando o espetáculo, a de um casal que ultrapassa os limites do mundo deparando-se com fadas, monstros ou insetos gigantes. 

As pinturas de Dali, Picasso e, principalmente, Magritte, são referências estéticas presentes no espetáculo. Magritte já inspirou outras montagens de Genty através de personagens recorrentes que sempre usam casacos e chapéus, por exemplo, numa alusão às pinturas do artista belga.

Philippe Genty dedica-se ao teatro de formas animadas desde 1960. Conhecido por criar ambientes lúdicos e personagens fantásticos, o diretor francês formou sua própria companhia na década de 70. Ao criar conexões entre várias linguagens, implodiu as definições clássicas que separam as categorias tradicionais dos espetáculos ao vivo, reunindo o trabalho de atores, bailarinos e manipuladores de bonecos. Genty já viajou por 47 países rodando um filme para a UNESCO sobre o teatro de marionetes. Um dos seus espetáculos mais conhecidos, “Oceanos e Utopias”, foi criado para a Expo 98 de Lisboa, conquistando depois o público de outros países.

La Fin des Terres’ reforça o conceito onírico das criações de Genty, conduzindo o público para outros mundos ou outras dimensões da consciência através da arte. Talvez a melhor definição para o seu trabalho seja  “pintura em movimento.” 

 

Leia mais em www.filo.art.br



Escrito por célia musilli às 19h14
[] [envie esta mensagem] []



O dramaturgo, diretor e ator Mário Bortolotto em cena

 

Um diretor em boa companhia

 

 

O dramaturgo e diretor teatral Mário Bortolotto é londrinense e considerado um dos nomes mais expressivos da cena nacional. Ele está em Londrina para apresentar dois espetáculos no FILO: “O Natimorto – Um Musical Silencioso” e “Chapa Quente.”

Ontem eu assisti a “O Natimorto”, uma montagem de agilidade incrível, na qual o excelente  texto de Lourenço Mutarelli cria um clima variado, transitando rapidamente da melancolia para o humor.

Com ótimas interpretações de Nilton Bicudo, Maria Manoella e Martha Nowill, “O Natimorto” , dirigido por Bortolotto, aborda os impasses de personagens recolhidos num quarto de hotel, numa situação que acirra seus conflitos pessoais.

O espetáculo inaugurou no festival o Teatro FILO que ocupa o espaço do antigo Cine Vila Rica que, durante muitos anos, foi uma das principais salas de cinema de Londrina. “Assisti a muitos filmes ali “ – comentou Bortolotto, em entrevista hoje de manhã.

 

Ele também falou de “Chapa Quente”, espetáculo do grupo Cemitério de Automóveis (SP), que ele dirige, com apresentação única no FILO amanhã (10) , às 20h30, no Teatro Ouro Verde.

‘Chapa Quente” é um fusão fantástica da linguagem do teatro com a dos quadrinhos, levando ao palco sete tramas do desenhista André Kitagawa, considerado o “artista revelação” da HQ Mix em 2003.  

No espetáculo, os heróis e anti-heróis dos quadrinhos às vezes se ‘descolam” de um telão e são incorporados pelos atores em ações que transformam o palco num território de mutantes. Entre a projeção das imagens e a atuação do elenco desenha-se um novo universo, onde os desenhos se fundem com as interpretações.

Bortolotto falou sobre a alquimia de transformar HQs em teatro. “Da forma como foi feito, Chapa Quente traz uma proposta inédita. Há momentos em que os atores viram de costas e ligam-se ao desenho numa cena contínua” – disse, explicando ainda que a montagem é complexa, reunindo um elenco de 12 atores, além dos operadores de som, luz e vídeo que interagem de forma sincronizada. Ele afirma que seria difícil trazer este espetáculo a  Londrina fora do festival pela complexidade da produção, que demanda espaço e recursos apropriados.

Bortolotto também lembrou de outros espetáculos que utilizam os quadrinhos como base e citou dois produzidos no Paraná: “New York por Will Eisner”, com adaptação e direção de Edson Bueno, e “Graphic”, do grupo curitibano Vigor Mortis, que foi apresentado no ano passado no FILO. “Gostei bastante de Graphic” – afirmou o diretor que juntamente com Adriano Garib (Cia Teatro Autônomo/ Rio), Paulo de Moraes (Armazém Companhia de Teatro/ Rio) e Maria Fernanda Coelho (Grupo Noisette/ Bélgica) forma uma trupe de londrinenses que hoje vivem em outras cidades do Brasil e do exterior. Todos eles estão em Londrina para participar  do FILO, com suas companhias de teatro, como convidados especiais dos 40 anos do festival. 

 

 

Para saber mais:

 

O blog de Mário Bortolotto está linkado aqui ao lado.

 

Leia texto completo sobre 'Chapa Quente' em www.filo.art.br



Escrito por célia musilli às 18h29
[] [envie esta mensagem] []



"Manologias': aula de criatividade

 

As mãos em cena

Teatro pode ser feito com as mãos. Quem duvida, deve assistir ‘Manologias’, do grupo Santa Rodilla (Peru), que tem hoje sua última apresentação no FILO,  no Teatro Funcart, às 19 horas.

Na entrevista, os atores Renato Curci, Roberto White e Ana Santa Cruz fizeram demonstrações do que se passa no palco. Eles às vezes usam somente as mãos para criar figuras que, afinal, são personagens. Não bastassem os dedos para tanta criatividade, também usam objetos, pedaços de tecidos e outros recursos que se transformam em pessoas ou animais muito divertidos. Alguém já viu um sapato se transformar em gente? Pois, o grupo consegue realizar a proeza e o espaço onde se coloca os pés vira uma boca imensa que fala com a platéia.

 

“Manologias” é formado por 16 pequenas histórias, só uma conta com um boneco tradicional - uma caveirinha de arrepiar. Feito com muito humor, o espetáculo também envereda por reflexões filosóficas e tem uma dose acentuada de poesia nas cenas que encantam pela simplicidade e a beleza. Um tango dançado com os dedos e uma interação entre a careca de um dos atores e as mãos de outros estão entre os momentos divertidos de “Manologias”, uma montagem que é uma aula de criatividade. 

 

O espetáculo é a produção mais recente do grupo que existe desde 2004. Os atores vivem em países diferentes: Renato Curci na Itália, Roberto White na Espanha e Ana Santa Cruz no Peru, mas se juntam nas temporadas. Esta é a terceira vez que eles vêm ao Brasil e dizem que gostam muito do público brasileiro, aproveitando as manifestações da platéia para interagir e criar cenas de improviso.

 

Saiba mais:

 

http://www.filo.art.br/

 



Escrito por célia musilli às 17h21
[] [envie esta mensagem] []



Besouro  Cordão-de-Ouro: musical que mexe com o público

Cultura brasileira

 

No Festival Internacional de Londrina - FILO -, o Brasil também apresenta espetáculos magistrais. Um exemplo é “Besouro Cordão-de-Ouro” , dirigido por João das Neves e encenado por um elenco carioca. A montagem é um musical que resgata a história de Manuel Henrique Pereira ou Besouro, considerado um dos maiores mestres de capoeira da Bahia, que morreu aos 27 anos e se tornou uma lenda.  Politizado, instigante e culturalmente rico, o espetáculo extasia o público. Com direção musical de Paulo César Pinheiro, “´Besouro” traz manifestações culturais de raiz. Impossível ficar parado ao ver o elenco, formado por atores negros, cantando e dançando, seja nas gingas da capoeira ou em referências ao sagrado candomblé.

Atores-cantores, de vozes impressionantes, entoam as canções que incluem “Lapinha”, com aquele refrão conhecido de norte a sul: “Quando eu morrer, me enterrem na Lapinha...”

O cenário, com centenas de caixotes de madeira e, em parte, iluminado pela luz de velas, cria um clima de armazém portuário para o espetáculo que, em 2006, foi considerado pelos críticos um dos melhores do ano. Enfim, uma cena verde-amarela, na qual brilha o talento dos atores, matéria-prima do teatro, muito além das luzes e dos holofotes.     

 



Escrito por célia musilli às 13h11
[] [envie esta mensagem] []



O Oratório de Aurélia: elementos do music hall e do circo

 

 Teatro mágico

O Festival Internacional de Londrina – FILO - começa amanhã e segue até o dia 22, transformando a cidade num imenso cenário que vai receber 15 grupos internacionais e 32 grupos nacionais de teatro.

O Oratório de Aurélia, espetáculo de estréia do festival,  é uma fantasia cênica feita para encantar o público e que fica em cartaz nos dias 4, 5 e 6. No palco, a atriz  francesa Aurélia Thierrée contracena com o bailarino norte-americano Timothy Harling, numa montagem cheia de poesia e humor que une elementos do music-hall e do circo.

No espetáculo, a atriz é dirigida pela mãe Victoria Thierrée Chaplin. E se este sobrenome faz soar nas nossas cabeças os sinos da arte fantástica de Charles Chaplin, não é por acaso. Victória e Aurélia são respectivamente, filha e neta de Chaplin, mas fazem questão de trilhar caminhos muito próprios.

Além do teatro, Aurélia também tem participações no cinema e trabalhou com o diretor Milos Forman.

 

N'Oratório de Aurélia, a atriz, bailarina e acrobata incursiona por um universo mágico, entre objetos que ganham vida própria. A montagem que mistura música,acrobacia e marionetes já percorreu o mundo. No Brasil, ela será apresentada em sete cidades, incluindo Londrina. O espetáculo de estréia do FILO cai bem num ano de celebrações, afinal, o festival está completando 40 anos. Artistas e público aplaudem.

 

Saiba mais:

 

http://www.filo.art.br/



Escrito por célia musilli às 01h38
[] [envie esta mensagem] []



 

Eu do avesso

(um texto recorrente)

 

Este meu lado de dentro não combina com meu lado de fora. Nasci na contramão da certeza. Por isso, um dia um amigo disse que havia outra mulher dentro de mim. Eu respondi distraída: “É que você vê meu miolo.”  Ele riu e não disse mais nada. Passaram anos, este amigo atravessou o oceano, mas aquele fio de conversa virou uma meada na minha cabeça, onde tudo cresce. Então descobri em mim uma mulher pacífica e outra tiririca de ruim. Uma angelical, outra que rebola. Uma que se aquieta num canto, outra que dança rumba. Uma capaz de viver de dia, outra que só vive à noite. E pensei: “Mulher é como a lua. Muda de fase e quando a gente está quase se acostumando com ela, fica clarinha, clarinha ou escura de arrepiar."

Por isso, os que se chegam a mim estranham o olho gateado que faisca de repente e quando pensam que vou avançar, canto música de ciranda. Eu sou uma menininha que cresce em três tempos, se me provocarem.  Eu tenho um pé na loucura. Um não, dois. No dia em que um cachorro me mordeu , retribui a gentileza e ele saiu ganindo de dar dó. Mas também sei miar pedindo colo e enrosco na perna do dono, porque meu lado de dentro não combina com meu lado de fora. Vivo uma vidinha espremida entre dois atos, controvertida e sem entregar de bandeja meus humores. Quem gostar de mim que me adivinhe, cansei de ser camarada. Tem gente que acha que camarada é besta. Hoje amarro minha sensibilidade num pavio...bem curto. E quando saio na porrada até os malandros me respeitam. Descobri que tenho corpo fechado. Minha loucura é meu escudo e minha fraqueza. Minha loucura é minha fantasia.



Escrito por célia musilli às 22h27
[] [envie esta mensagem] []



pongo estos seis versos en mi botella al mar

con el secreto designio de que algún dia

llegue a una playa casi desierta

y un niño la encuentre y la destape

y en lugar de versos extraiga peidritas

y socorros y alertas y caracoles

                                     (Mario Benedetti)



Escrito por célia musilli às 22h33
[] [envie esta mensagem] []




[ ver mensagens anteriores ]